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Artigo de Opinião: Os caminhos do Médio Oriente que não deixam Biden sossegar

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A mudança estratégica da diplomacia americana para o Indo-pacífico vai ter que lidar com a companhia do Médio Oriente: a visita de Biden à Israel, Palestina e Arábia Saudita surge numa altura em que laços com parceiros na região já viveram melhores dias

Bem no início do seu mandato, Joe Biden deixou bem claro que o polo económico, geopolítico e militar do mundo estava a estabelecer-se no Indo-pacífico, e que os Estados Unidos não iriam ignorar essa mudança.

Ora, se mais provas queremos, a Estratégia para o Indo-Pacífico revelada pela Casa Branca em fevereiro de 2022 demonstra argumentos mais que perentórios logo no seu bloco introdutório: “A região, que se estende desde a nossa (Estados Unidos da América) costa do Pacífico até ao Oceano Índico, é o lar de mais de metade da população mundial, quase dois terços da economia mundial, e sete das maiores forças armadas do mundo. Mais membros das forças armadas dos EUA estão baseados na região do que em qualquer outro fora dos Estados Unidos.” Conclui ainda com: “Nos próximos anos, uma vez que a região irá gerar dois terços do crescimento económico global, a sua influência só crescerá – como crescerá a sua importância para os Estados Unidos”

Era um caminho lógico. O Médio Oriente estava a perder a sua relevância tradicional através do seu bem mais precioso, o gás e o petróleo, com o advento das energias renováveis e a sua cada vez maior adesão por esse mundo fora. Por outro lado, o Indo-pacífico concentra aquela que poderá ser brevemente a maior economia mundial e que se irá assumir como o rival da economia americana nos anos vindouros: a China.

Mas a pandemia e a guerra na Ucrânia vieram trazer novas variáveis para cima da mesa. A procura de alternativas para a energia que “alimentava” a Europa vinda da beligerante Rússia voltaram a reacender a chama do Médio Oriente. Face a isto, Joe Biden percebeu (e bem) que estava a perder créditos na região com o relevar para segundo plano das relações privilegiadas que tinha com países como a Arábia Saudita ou Israel. O golpe de reputação sofrido depois da desastrosa saída das tropas americanas do Afeganistão também não jogou a favor dos americanos.

Mas, vamos por partes: porquê esta visita agora? E porquê Israel, Palestina e Arábia Saudita?

O timing é, aos olhos de muitos especialistas, inevitável. E os destinos escolhidos também. O papel da Arábia Saudita como um dos maiores produtores de gás e petróleo a nível mundial e um dos elementos-chave na procura de alternativas à energia russa (juntamente com a Venezuela e o Irão, talvez os países mais importantes neste capítulo) exigia que a aliança entre os dois países fosse reavivada. Nas palavras de Biden, a viagem pretende “reorientar” as relações com um “parceiro estratégico” com o qual mantém relações há mais de 80 anos.

Por outro lado, Israel é também um destino lógico por dois grandes motivos, mas não únicos: a inconstância política do país, que mais uma vez não conseguiu levar um governo avante; e a procura de pontos em comum entre Israel e a Arábia Saudita (assim como outros membros do Golfo) para que exista um reaproximar de relações e, assim, assegurar uma frente unida contra um Irão que avança a passos largos o seu programa nuclear.

Entrando agora mais em detalhe na questão saudita, é importante perceber que a relação entre os EUA e a Arábia Saudita não está numa fase de lua de mel. A fase é negativa ao ponto de, pela primeira vez nos anos mais recentes, a coroa saudita não ter como principal ponto de contacto um presidente americano, mas sim o seu Secretário de Defesa.

O principal catalisador foi a morte de Jamal Khashoggi. O jornalista e conhecido crítico da coroa saudita, alegadamente assassinado a mando de Mohammed bin Salman no consulado saudita, foi a “gota de água” que levou ao azedar de relações.

Como seria de esperar, os EUA não reagiram bem a este assassinato a mando da coroa e assumiram uma postura de veemente repúdio face a este incidente diplomático, culminando em sanções e outras medidas contra a Arábia Saudita. Não caiu bem junto dos sauditas, e as relações esfriaram entre os dois países, com a questão do respeito pelos direitos humanos a ser a divergência motriz deste afastamento.

Ora, o motivo para o reaproximar teria que ser de força maior e não é um motivo novo: o gás e petróleo que abundam na Arábia Saudita. O aumento de preços desenfreado motivado pela guerra na Ucrânia e a liderança regional saudita faziam desta paragem obrigatória para a comitiva americana liderada por Biden.

Mas poderemos esperar preços mais baixos no gás e petróleo vindos dos sauditas depois da visita de Biden? Provavelmente não. Apesar da Arábia Saudita poder efetivamente aumentar a produção de gás e petróleo, não será suficiente para ter um impacto muito relevante no preço do barril. Macron chegou até a confidenciar a Biden que não achava que Mohammed bin Salman pudesse aumentar a produção mais do que uns meros 150 mil barris por dia, manifestamente insuficiente face à procura elevada que se faz surgir no Ocidente. Se isto será completamente verdade não sabemos, mas não andará muito longe.

Outro esforço de Biden com os sauditas será para que o país reduza o seu apoio à guerra civil no Iémen. A pressão do partido democrata tem sido grande neste sentido, numa guerra que está a gerar uma das maiores crises humanitárias atualmente no mundo, fazendo deste tema uma prioridade nas conversas entre as duas nações.

Serão conversas difíceis e não está claro qual a proximidade de contactos que Joe Biden e Mohammed bin Salman irão ter. Tudo leva a crer que não vamos ter avanços diplomáticos significativos, mas o período de exceção vivido pode levar a um acelerar do diálogo.

Se na Arábia Saudita as conversas não serão fáceis, em Israel a discussão também não parece prever grandes avanços. Os Acordos de Abraão, celebrados por Trump e que ajudaram Israel a normalizar relações com muitos estados árabes, não favoreceram significativamente os palestinianos. O corte dos palestinianos da mesa de negociações aquando dos Acordos (por opção própria) é prova de como foi vista esta normalização de relações.

É verdade que Biden já restabeleceu algumas das medidas que Trump cortou de apoio à causa palestiniana, como é exemplo a recuperação do financiamento da agência das Nações Unidas que presta apoio a refugiados palestinianos. Mas a ideia de que esta viagem servirá para aproximar Israel e Palestina de forma significativa parece otimista em demasia.

O caminho sinuoso para Biden não é o deserto saudita nem os 37ºC que vai encontrar em Jeddah, mas sim o equilíbrio entre satisfazer os seus parceiros estratégicos sem comprometer a luta pela defesa dos direitos humanos.

As sanções à economia saudita e as proibições de obtenção de vistos aos envolvidos (direta ou indiretamente) na morte de Khashoggi foram uma resposta clara dos EUA a aliados que decidam desrespeitar os direitos humanos, mas a necessidade de negociar com nações com um registo mais dúbio no respeito pelos direitos humanos, como é o caso da Arábia Saudita, coloca-nos a questão de até onde estarão os Estados Unidos dispostos a ir sem comprometer os seus valores. A viagem de Biden a um país marcadamente autocrata faz-nos repensar também o quão, em situações de aperto económico e político, uma democracia pode ter que ceder aos desígnios de nações com as quais os valores democráticos na sua grande maioria não se coadunam.

Em jeito de conclusão, engane-se quem pense que a viagem ao Médio Oriente de Biden muda o foco estratégico americano do Indo-pacífico. Mas que duas frentes (ainda que temporariamente) não são fáceis de navegar é um facto, e esse é o grande desafio atual de política externa para a Administração Biden.

Por: Miguel Ferreira


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