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Os ventos da geopolítica internacional: a favor ou contra Putin?

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Numa das suas raras e seletivas aparições em público desde o desenrolar da guerra na Ucrânia, o presidente Putin afirmou, no 25º Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, que “nunca mais nada será como dantes na política internacional”. Tem razão, mas será que os ventos da política internacional sopram agora a favor ou contra a Rússia?  

O Fórum Económico Internacional de São Petersburgo deu de novo palco ao presidente Putin, figura discreta nas intervenções diretas do governo russo desde o início do conflito com a Ucrânia. Os papeis de destaque têm sido concedidos a Sergey Lavrov, seu ministro dos Negócios Estrangeiros e ao secretário de imprensa do Kremlin, Dmitry Peskov.

Nesta rara intervenção de Putin, ficou clara a visão do panorama geopolítico do presidente russo. Declarou o fim do “mundo unipolar” dominado pelos Estados Unidos, que, segundo ele, se consideram “Deus na terra” e gerem os seus interesses olhando para os outros países como colónias.

Falou ainda numa pressão psicológica e numa guerra de informação contra o povo russo e a Rússia como país, falando na existência de uma impensável “russofobia” que o Ocidente emprega, mas que, segundo a sua opinião, não está a ter os resultados práticos desejados.

Putin dedicou uma parte significativa da sua intervenção à situação económica russa. Afastou a responsabilidade russa sobre a crise económica mundial que se avizinha (ou já cá está), dizendo que as crises nas cadeias de valor são frutos de uma política macroeconómica fraca do G7.

Mas algo de particular interesse no discurso de Putin foi a afirmação de que os desafios económicos que empresas e setor público enfrentam são passos rumo à construção de uma economia “verdadeiramente soberana” na Rússia. Podemos especular sobre o que o conceito de soberania engloba neste caso, mas eu entendo-a aqui como uma redução da dependência ocidental a nível económico. A “soberania” como uma independência económica total é um conceito irrealista num mundo verdadeiramente global, e Putin sabe-o.

E como a história nos comprova, não há “buracos por preencher” na geopolítica e economia internacional. Os mercados ocidentais terão que ser substituídos por outros mercados para a Rússia avançar com a sua recuperação económica. O Oriente e a China estão na pole position para ocuparem esse vazio. Mas Putin não fecha as portas às empresas do Ocidente que queiram trabalhar com a Rússia.

Ainda neste capítulo, Putin deixa no ar a ideia de que a Europa cometeu erros de cálculo nas sanções à Rússia e que está a sofrer mais que a economia russa com essas mesmas sanções, apontando à inflação como prova cabal das suas afirmações. É inegável que as sanções económicas iriam ser sempre uma faca de dois gumes para o Ocidente: quando se coloca restrições a uma economia relevante e sobre a qual existe uma enorme dependência num determinado setor (neste caso, no energético), o Ocidente sabia que eventualmente ia pagar a fatura da sua rápida e uníssona atuação.

É, no entanto, falso que, e olhando unicamente para o argumento da inflação, que a Europa esteja a lidar pior com o impacto económico da guerra do que a Rússia. Os números do primeiro trimestre (dados de abril) apontavam para 17.8% de inflação na Rússia, enquanto na Europa (zona Euro) os números apontam para 7.4% de inflação, com a tendência para aumentar nos próximos tempos.

Sobre as linhas futuras, o caminho para Putin parece ser na aposta no investimento privado, na criação de um sistema financeiro próprio e no aumento do desenvolvimento tecnológico.

A nível militar, Putin deixou palavras de apreço e louvou o esforço dos soldados e forças militares na “operação especial” (até aqui nada de novo) no “Donbass” (aqui sim está uma novidade). O reajustar da invasão russa, pelo menos nos entretantos, para um teatro de operações mais reduzido e concentrado no Donbass são os resultados de uma inesperada, mas categórica resistência ucraniana e de uma série de derrotas simbólicas sofrida na primeira fase desta invasão. Lavrov já o tinha mencionado nas suas intervenções na Turquia, Putin confirmou-o.

Esta é uma fase da guerra que favorece mais o lado russo que o lado ucraniano. Um palco de combate disperso, as longas colunas militares vulneráveis a ataques ucranianos e a indefinição aparente das operações no terreno demonstraram uma pouco expectável vulnerabilidade militar russa. O que observamos agora, que é um conjunto de operações limitadas territorialmente (centradas nos territórios do Donbass, sobretudo) favorece sempre a força militar mais forte, e os avanços russos no terreno estão a provar exatamente isso.

Corre-se ainda o risco de, em caso de o reatar das conversações diplomáticas se arrastar, uma guerra de atrito na zona do Donbass ser extremamente prejudicial para a Ucrânia e causar uma destruição em grande escala nas regiões afetadas.

Partindo agora para uma das frases mais marcantes do discurso de Putin e sobre a qual iniciei este artigo, o que podemos dizer desta nova “política internacional” que deslindou o presidente russo?

É inegável que o presidente russo tem razão neste capítulo. A invasão russa à Ucrânia foi a agressão militar mais relevante desde o término da Guerra Fria e assinala um novo capítulo geopolítico, onde as relações entre estados e organizações supranacionais serão afetadas. Onde Putin pode estar errado é no caminho dessas mudanças. Temos que pressupor (e trata-se mesmo de pressupor) que Putin tinha um cenário desenhado para a invasão da Ucrânia onde a Rússia sairia beneficiado e o Ocidente (o “ocidente” nos olhos de Putin), o seu tão famigerado inimigo, sairia prejudicado ou, pelo menos, em desvantagem. Mas as perspetivas atuais são bem diferentes.

Não sou fã de futurologia, mas algumas primeiras mudanças já podem ser apontadas com algum grau de certidão: a reunificação e até revitalização de uma NATO que estava moribunda e a ser questionada acerca da sua utilidade; o rearmamento da UE e o aumento generalizado dos orçamentos de defesa na Comunidade; uma crise económica massiva da Rússia e a criação de um novo bloco de dependência económico: a China e os mercados no Oriente; e uma unificação e agilização (que parecia irrealista) da UE face a um grande desafio como este. Podíamos seguir com uma série de outras mudanças um pouco por todo o globo, passando pelo Sahel e caindo no Indo-pacífico, mas penso que estas já dão uma boa perspetiva da evolução geopolítica pela qual estamos a passar. Tudo indica que os ventos sopram contra a Rússia, e não a seu favor.

Em jeito de conclusão, trago uma frase interessante de Gabrielius Landsbergis, ministro dos Negócios Estrangeiros lituano, numa entrevista à Foreign Policy, que resume bastante bem a meu ver a situação atual: “(…) Há ainda uma grande probabilidade de a Rússia não enfrentar a derrota. Sim, estão obviamente feridos com sanções e enormes perdas no campo de batalha, mas são capazes de sustentar isto, e se forem capazes de sustentar isto a longo prazo, então mais uma vez, estamos numa fase muito, muito perigosa da realidade geopolítica“. Já parece um clichê, mas o perdurar da guerra vai gerar incerteza, e águas incertas nunca são fáceis de navegar.


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