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Entre economia, política, energia e tecnologia, o que de novo nos trouxe Davos 2022?

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Davos 2022 prometia trazer um conjunto de temas quentes para a mesa: a guerra na Ucrânia encabeçava a lista, mas a recuperação económica face aos efeitos da pandemia, a crise alimentar e a emergência climática eram também assuntos a ter em conta. Discussão e debate houve, mas será que emergiram soluções reais para os maiores desafios que o mundo enfrenta?

A reunião do Fórum Económico Mundial é um dos eventos do calendário político anual dos líderes mundiais. Durante 4 dias, numa pitoresca vila suíça, encontram-se líderes políticos, membros da elite da sociedade civil e algumas das figuras mais proeminentes de diferentes quadrantes da sociedade. Discutem uma série de temas (predefinidos) de importância maior para o desenvolvimento das sociedades globais, e cooperam na procura de respostas eficientes aos problemas que nos rodeiam. Dada a sua importância estratégica a nível mundial, a reunião do Fórum Económico Mundial é também uma plataforma de promoção nacional e regional para o lote de países presentes, que este ano não incluiu um dos seus membros mais ativos em anos passados: a Rússia.

De uma forma generalizada, os temas em cima da mesa compreenderam a guerra na Ucrânia, a economia mundial, a globalização, as crises energética, alimentar e sanitária, as alterações climáticas, o papel de empreendedores e empresas na atualidade, o futuro do mundo do trabalho e, por fim, o novo fenómeno do ciberespaço: o metaverso.

A intervenção de proa estava reservada para Volodymyr Zelensky. O presidente ucraniano, possivelmente o líder mais carismático à escala mundial atualmente, não alterou significativamente o seu discurso, face a intervenções recentes: um apelo bilateral focado no apoio à Ucrânia e na debilitação da Rússia, frisando a necessidade de reforçar os mecanismos de apoio internacionais. Ao apelo de Zelensky juntaram-se outras figuras de relevo ucranianas, que ouviram das vozes europeias (Ursula Von der Leyen, Olaf Scholz, Jens Stoltenberg, entre outros) uma promessa de ajuda contínua e novos apelos à cooperação da comunidade internacional.

Ainda assim, o momentum negocial parece não ter recomeço à vista: Dmytro Kuleba não negou a dificuldade de negociar com a Rússia perante os termos atuais, e Zelensky afirmou que a Ucrânia não irá ceder nenhuma parte do seu território em troca de paz, princípio que parece reunir consenso em território ucraniano.

De uma forma geral, não houve mudanças significativas no que diz respeito ao conflito: o apoio da União Europeia parece estar para ficar, a comunidade internacional procura a paz perante o ecossistema de incerteza atual, e a mesa das negociações mostra-se com dificuldades para levar as duas partes a conversar.

O outro tema inequívoco seria a recuperação económica. No entanto, apesar da agenda definida falar em “recuperação”, o tom pessimista que reinou em Davos faz mais lembrar outra palavra bem mais preocupante: “recessão”. Com o FMI a rever em baixa o crescimento económico mundial e as pressões inflacionárias a sentirem-se em algumas das mais relevantes economias mundiais (onde se inclui a americana), diversos setores económicos enfrentam desafios de uma escala sem precedentes nas últimas décadas. Kristalina Georgieva, diretora geral do FMI, afirmou que o horizonte atual não abona a favor das economias mundiais, apontando a crise alimentar e o impacto dos constrangimentos nas cadeias de valor à escala mundial como dois dos principais desafios a uma economia ainda a sofrer os efeitos da pandemia.

Como recessão é uma palavra forte, houve quem a substituísse por… banana. David Rubenstein, fundador do The Carlyle Group, usou a palavra “banana” como substituto de recessão, e deixou o aviso de que “uma banana pode não estar assim tão longe”. O papel das taxas de juro na prevenção de uma possível recessão saiu reforçado de Davos, onde se apelou a ações rápidas e concretas capazes de antecipar eventos económicos decorrentes da situação atual. Uma constatação interessante foi o papel que várias personalidades deram à resiliência das sociedades face ao choque económico: a educação e a proteção social foram apontadas como soluções para criar comunidades que consigam fazer frente a uma situação económica menos favorável.

Para além de política e economia, temas tradicionais e inegáveis de Davos, também tecnologia esteve no centro das atenções. Numa década profícua em evolução tecnológica, onde temos tido acesso a tecnologias emergentes (nem todas surgiram no decorrer desta década) como a tecnologia de blockchain, os NFTs (Non-Fungible Tokens) ou o Metaverso, seria impossível fugir ao tema. A “revolução tecnológica” esteve representada na sociedade civil através de um número recorde de empreendedores ligados a estas novas tecnologias, que defenderam o papel da tecnologia na promoção da sustentabilidade das próximas gerações no nosso planeta.

A velocidade da evolução tecnologia foi um dos temas em cima da mesa: como podemos garantir que uma evolução a duas velocidades (física e virtual) não irá levar a um processo de maiores desigualdades que exacerbe ainda mais as dificuldades que o processo de globalização enfrenta. Uma segunda questão, que não pode ser dissociada da evolução, é como podemos assegurar que a tecnologia é utilizada na melhoria da qualidade de vida da sociedade e que não cresce longe das necessidades da mesma.

Um dos últimos tópicos discutidos foi o papel da crise energética e da crise alimentar na estabilidade mundial.

A crise energética foi abordada sobre uma dualidade de perspetivas: o seu impacto na economia mundial e a sua influência na resposta conjunta da comunidade internacional ao conflito russo-ucraniano, e o potencial da mesma em acelerar soluções de clean energy em países tradicionalmente mais dependente de energias fósseis. Um dos destaques mais curiosos nesta discussão foi o trazer para a mesa aquele que é, a meu ver, um dos caminhos com enorme potencial e ainda com imenso para desbravar: a green finance. Em todas as transformações à escala global, o sistema financeiro tem um papel a desempenhar, papel esse que pareceu ocupar um lugar de destaque na discussão em Davos.

A crise alimentar assusta, e de que maneira! O bloqueio aos portos ucranianos é só a ponta do icebergue que está a assolar o mundo, no que a este capítulo respeita. Ao bloqueio dos portos ucranianos juntam-se a crise das cadeias de valor e as cada vez mais sentidas alterações climáticas. O desafio da crise alimentar não pode ser dissociado da crise climática, algo que ficou bem presente nas diversas intervenções sobre o tema.

O Fórum Económico Europeu tem sempre particular importância do ponto de vista económico e financeiro, mas, este ano, mais do que nunca, a reunião na pitoresca vila suíça foi para além do aspeto económico, tocando inclusive com alguma insistência no capítulo diplomático. O discurso de Zelensky foi o ponto alto a nível mediático, sem grande surpresa. A crise alimentar e o ambiente tecnológico foram dois temas que surpreenderam pelo papel de destaque que ganharam nos últimos dias e deram origem a discussões muito interessantes sobre duas dimensões da realidade que não poderemos ignorar no futuro próximo.


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