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Artigo de Opinião: De Lisboa a Vladivostok, ninguém vai esquecer Bucha

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As imagens aterradoras de dezenas de civis mortos espalhados pelas ruas de Bucha abrem um novo capítulo da guerra na Ucrânia, um que promete trazer consigo mais assertividade e eliminar algumas das últimas barreiras autoimpostas no que diz respeito às posições oficiais de todas as peças do tabuleiro deste jogo de xadrez que faria Kasparov

Há eventos que marcam um conflito. O assassinato do arquiduque Franz Ferdinand despoletou a Primeira Guerra Mundial, o ataque a Pearl Harbour enrijeceu a posição americana na Segunda Guerra Mundial e abriu caminho para as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki e o desembarque na Normandia construiu os alicerces da vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. E estes são só alguns dos exemplos que temos mais próximos de nós. Será o aparente massacre de Bucha o Dia D para a Rússia? Talvez não, mas seguramente que exponencia as dinâmicas do conflito vistas até aqui.

Dezenas de corpos espalhados pelas ruas destruídas pelo impacto de misséis, relatos de mulheres violadas e da revolta popular perante a brutalidade russa na cidade que dista cerca de 60kms da capital Kiev. Um pouco por todo o mundo, Bucha trouxe um mediatismo ainda maior para um conflito já com uma cobertura mediática significativa. E não podia surgir em pior momento para a Rússia.

Se é verdade que a ofensiva russa em território ucraniano dava sinais de estar mais errática e cada vez mais direcionada para os territórios que serviram de pretexto para o início do conflito (Lugansk e Donetsk), no capítulo diplomático parecia que as partes estavam a dar passos significativos.

Os encontros estavam a ser mais regulares e a realizar-se em território livre de influenças diretas de ambos os países (Turquia), a questão da neutralidade ucraniana no capítulo de prevenir uma possível entrada na NATO estava encaminhada, a Crimeia parecia estar pelo mesmo caminho e só as pontas soltas a nível territorial das regiões proclamadas independentes pela Rússia no Donbass pareciam colocar-se no caminho de um acordo preliminar entre os dois lados. Importante realçar que não estaríamos com isto a apontar para o término do conflito, mas talvez para uma maior normalidade diplomática, pelo menos, o que já seria um passo importante nos mais de 40 dias de guerra que já temos.

Bucha deitou por terra qualquer esperança de normalidade diplomática. O presidente Zelensky apressou-se a afirmar que negociar era agora bastante difícil, se não impossível, galvanizado também pelas pequenas vitórias ucranianas que dão força à ideia ucraniana que o país pode vencer este conflito. Se de um lado o peso das acusações de massacre, violações em massa e de civis abatidos extremavam uma posição, do outro lado fala-se em encenação.

Dmitry Peskov e Lavrov, dois dos mais influentes membros do Kremlin e duas vozes ativas desde o início do conflito, repetiram os apelos a uma investigação séria e isenta ao que se tinha passado em Bucha, alegando que havia provas na posse do Kremlin de que as imagens teriam sido adulteradas recorrendo a tecnologia de modificação de imagem. Também do lado do Kremlin as portas fecharam para um acordo diplomático aparente.

Devemos dar o benefício da dúvida à Rússia? Provavelmente não, mas vamos dar desta vez e analisar algumas das alegações passadas do Kremlin, num exercício de promoção de segundas oportunidades a quem não as merece.

1. A Ucrânia, em colaboração com os Estados Unidos, estão a construir armas químicas e biológicas. As provas têm sido brutalmente opostas a esta acusação, com o Kremlin a promover uma interpretação falsa de um tratado de colaboração entre os EUA e a Ucrânia que pretende prevenir ameaças deste tipo, não promover as mesmas.

2. A Ucrânia cometeu genocídio nas regiões separatistas de Lugansk e Donetsk, na região do Donbass. O Alto Comissariado para as Nações Unidas foi dos primeiros órgãos a vir imediatamente desmentir esta acusação, afirmando cabalmente que não há qualquer indício que aponte para tal na região.

3. Os Estados Unidos já têm em território ucraniano tanques e até um avião militar. Esta informação veiculada pelos canais oficiais de informação do Kremlin demonstram um tanque americano a ser retirado na Bulgária e um avião a aterrar no Alaska, afirmando sempre que o equipamento já está na Ucrânia, sustentando a necessidade de defesa da Rússia e, por consequência, o conflito na Ucrânia.

As falsas acusações não ficam por aqui e somam-se a cada dia. É difícil manter a imparcialidade perante as declarações russas à luz de tantas e numerosas acusações que sabemos que são falsas.

Falsas ou verdadeiras, o impacto das imagens de Bucha já se está a sentir também para além das fronteiras do território ucraniano, com o olhar mais atento a recair na Europa, nos Estados Unidos e na China.

A Europa afirmou pela primeira vez que poderia equacionar, à luz dos recentes acontecimentos, a “bomba atómica” das sanções, até agora sempre afirmada como sendo uma solução para a qual a Europa não estava preparada economicamente: o boicote energético total à Rússia. Os impactos de uma medida desta magnitude seriam brutais e poderiam levar a uma recessão económica quando a Europa acaba de sair de uma, com a Alemanha a ser um dos países mais afetados, prevendo-se uma queda do PIB de quase 3% se tal acontecesse. Ora, só o equacionar desta possibilidade já diz muito sobre como Bucha está a mudar o panorama geoestratégico do conflito.

Já no outro lado do Atlântico, os Estados Unidos avançaram com um pacote de novas sanções, marcado mediaticamente pelas sanções às filhas de Vladimir Putin, onde se estima que muita da riqueza do presidente resida. A Europa avançou também com um novo pacote de sanções onde o boicote ao carvão russo pode ser o primeiro passo para o boicote energético total, ainda que ainda seja muito cedo para dizer tal coisa.

Um dos maiores pontos de interrogação sobre a “onda de choque” que Bucha está e vai causar está na China. Se a posição chinesa era marcada por uma ambiguidade estrategicamente lógica, o massacre em Bucha traz um novo ingrediente para um prato já bastante picante.

O silêncio ensurdecedor face ao conflito na Ucrânia contrasta com as acusações rápidas que o regime chinês tem feito em acusações passadas em conflitos militares. A China condenou o uso de força no Iraque e na Síria por parte dos Estados Unidos, e por parte da União Soviética na Checoslováquia, já no longínquo ano de 1968, só para dar alguns exemplos. É verdade que não condenou os conflitos na Geórgia e na Chechénia, considerando-os não como invasões deliberadas, mas como conflitos internos, diferentes do que temos atualmente na Ucrânia.

As ambições geopolíticas da China não são novidade, e se antes não era detentora de um exército forte, hoje tem uma das forças armadas maiores e mais desenvolvidos do mundo. Juntamos a isto a vontade de anexar Taiwan e conseguimos perceber, pelo menos parcialmente, a relutância da China em condenar abertamente o Kremlin, parceiro estratégico de longa data com o qual recentemente assinou um tratado de cooperação económica para as próximas décadas.

Bucha poderia trazer ventos de mudança na posição chinesa, mas até ao momento nada nos leva a crer que essa seja a realidade. A CCTV, um dos maiores canais televisivos estatais, apresentou aos espetadores uma peça intitulada “A Ucrânia dirigiu um belo espetáculo”, alegando para as acusações russas de que as imagens terão sido fabricadas.

É importante deixar bem claro que estes ventos de mudança não seriam uma condenação da Rússia por parte da China. Esse cenário parece, à luz da informação e das leituras que podemos fazer ao dia de hoje, uma utopia, visto que não beneficiaria as relações sino-russas de nenhuma forma.

Uma nota de especial destaque vai ainda para a Índia. Apesar da pouca relevância em termos de ingerência nos assuntos diplomáticos sobre o conflito na Ucrânia, a abstenção na votação do Conselho para os Direitos Humanos das Nações Unidas para a abertura de um inquérito às ações da Rússia na Ucrânia abriram o olhar mediático para a posição do gigante asiático, a maior democracia do mundo em termos populacionais. A posição indiana é de distância, mas de complacência perante a Rússia, o que pode ser explicado pela oferta russa de vender energia a 35% de desconto face aos preços anteriores à guerra, aceite por Modi como “moeda de troca” para obter a complacência indiana.

Em conclusão, a “Eurásia aberta” que Medvedev proclamou pode ser um sonho irrealista, mas os impactos políticos, económicos e sociais da guerra vão bem além do que território aqui delimitado pelo Kremlin, numa realidade cada vez mais volátil e numa resolução de paz que regrediu significativamente após os acontecimentos deploráveis em Bucha.

Por: Miguel Ferreira


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