Novum Canal

mobile

tablet

opinião_daniela sousa

Artigo de Opinião: Capitalismo e Patriarcado | Os sistemas que beneficiam os 1%

Partilhar por:

Estes dois sistemas embora autónomos, beneficiam-se e reforçam-se mutuamente. O patriarcado é uma hierarquia de género que conscientemente privilegia os homens, dando-lhes o poder nas mais várias dimensões (melhor dizendo, em todas as dimensões), enquanto promove a opressão de género, racial, sexual e de classe.

 O capitalismo, por si só, está assente no patriarcado, uma vez que este beneficia do trabalho de género e não remunerado (normalmente de mulheres, pessoas racializadas ou imigrantes ilegais). O trabalho de género e não remunerado, beneficia o sistema capitalista através da chamada reprodução social. A reprodução social é que gera a força de trabalho para o sistema capitalista. Esta reprodução social assenta na defesa de papéis de género e promove a opressão de género. Normalmente a cargo das mulheres, a reprodução social, tende a ser colocada ao serviço do patriarcado, educando as crianças para o binarismo de género, cisgeneridade e heterossexualidade, tal como vemos nas escolas até aos dias de hoje. Apesar das várias tentativas de melhorar o programa escolar com a introdução de temas como educação para a saúde e a sexualidade, educação para igualdade de género, educação para os direitos humanos, educação ambiental/desenvolvimento sustentável… e todos sabemos a controvérsia que isso gerou! (já para não falar da versão heróica do colonialismo Português nos livros de História – talvez numa próxima crónica – que isto anda tudo ligado)

No fundo, o capitalismo, usa a opressão e o sistema social institucionalizados na sociedade para gerar um lucro ilimitados que só beneficia os tais 1% – e não, não são esses 1% que mais trabalham, mas sim os que mais exploram. Podemos ver que, regra geral, as empresas que mais lucram e cujos donos são os mais ricos do mundo, são as empresas que piores salários e piores condições de trabalho oferecem, pagam pouco ou nada de imposto e lucram assim milhões ou biliões, com a exploração de pessoas, recursos e dos sistemas construídos para o seu exclusivo enriquecimento e beneficio. O capitalismo não explora apenas a sua força laboral, mas também os seus recursos naturais. Não é por acaso que estamos numa crise climática, e o capitalismo tem provavelmente a maior das culpas neste problema.

As desigualdades (que cada vez aumentam mais) não são naturais. São o resultado de processos sociais, culturais e económicos que estruturam as relações sociais e de poder. As condições socioecónomicas (que são na maior parte dos casos determinadas à nascença), afetam, condicionam, limitam e impossibilitam a liberdade e empoderamento das mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+. E nunca é demais reforçar que alguém que seja imigrante, mulher, negra e LGBTQIA+ sofrerá um efeito cumulativo de todos os preconceitos e discriminações.

Contextualizando, por exemplo, em média as mulheres trabalham mais 4 horas por dia que os homens, em tarefas domésticas e no cuidado dos filhos, e sendo nelas que recai maioritariamente o cuidado com os filhos isso faz com que as mulheres faltem mais aos seus trabalhos e são por isso prejudicadas, quer nos seus salários, quer nas suas carreiras. As mulheres continuam a receber em média menos 15% a 20% que os homens, sendo que a diferença em cargos de topo é ainda maior. Como é óbvio isto tem impactos relevantes na vida das mulheres, na sua liberdade e na sua possibilidade de empoderamento.

Apesar de notáveis melhorias na legislação, nomeadamente em Portugal, não raras vezes vemos que isso não é suficiente. Não basta mudar a lei! Temos de educar as pessoas de forma a desconstruir o sistema sexista, racista e homofóbico institucionalizado e promotor de desigualdades, e temos de dar condições às pessoas para saírem dos seus ciclos de violência e opressão, promovendo serviços públicos de qualidade e justos, salários justos, habitação social e financiamento para que tal seja possível.

Para travar estas desigualdades, temos de ir à raiz do problema (ou às raízes) e reconhecer que existe o problema.

Termos políticos a dizer que “Portugal não é um país racista” – quando nos últimos anos foram públicos vários casos de crimes de ódio racial e xenofónicos (como aconteceu no SEF, em Odemira, ou o homicídio de Bruno Candé) e com dados a reportar que a violência policial contra as pessoas afrodescendentes, nacionais ou estrangeiras são mais frequentes – , ou, que “Portugal não é um país sexista/machista/misógino” – quando até ao momento morreram 15 mulheres assassinadas por pessoas próximas (companheiros/ex-companheiros), a igualdade salarial está longe de ser alcançada, e os casos de assédio e abuso são uma constante diária na vida de meninas e mulheres- , só mostra a enorme falta de consciência e – quem sabe de interesse – por parte de muitos políticos (e da sociedade) para tentar efectivamente combater estes sistemas e diminuir as desigualdades construídas pelos mesmos.

Mas, citando as autoras do livro “Feminismo para os 99%”, “a luta é uma oportunidade e uma aprendizagem. Tem o poder de transformar quem nela participa, de desafiar os nossos preconceitos sobre nós mesmos e de reformular a nossa perspectiva do mundo”. Vamos colocar o nosso “processo de humanização em curso”? O seu primeiro passo pode ser dado já nas eleições legislativas de 30 de Janeiro.

Daniela Sousa

Militante do Bloco de Esquerda


Partilhar por:

SIGA-NOS NAS REDES SOCIAIS!

Receba todas as novidades!

Subscreva a nossa Newsletter

SIGA-NOS NAS REDES SOCIAIS!

Ajude o Jornalismo Regional

IBAN: PT50 0045 1400 4032 6005 2890 2
Caixa de Crédito Agrícola Mútuo

Obrigado!

Estamos a melhorar por si.
Novum Canal, sempre novum, sempre seu!