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OPINIÃO MIGUEL FERREIRA

Artigo de Opinião: A experiência económica de Erdogan: solução ou desastre?

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A Turquia vive, desde setembro, uma experiência económica que tem gerado alguma consternação na comunidade financeira e desvalorizado a lira turca para valores nunca antes vistos, mas o presidente Recep Tayyip Erdogan parece inabalável na sua ideia, dizendo mesmo que “não volta atrás” na política adotada. Mas afinal no que consiste a estratégia adotada por Erdogan e qual a fiabilidade económica da mesma?

Corria o mês de setembro quando o Banco Central Turco (instituição financeira que tutela a política fiscal do país), a pedido do presidente Erdogan, abaixa o valor das taxas de juro no país em 500 pontos base (5%), uma descida abrupta e recebida de forma surpreendente pelos mercados internacionais. A taxa de juro passava agora a ser 14% face aos 19% anteriores, uma estratégia à primeira vista incompreensível, face ao facto de, na altura, a inflação se situar aproximadamente nos 20%, o que indicaria um aumento e não um decréscimo das taxas de juro (o aumento da taxa de juro como mecanismo para controlar a inflação é altamente utilizado nas economias públicas).

A redução das taxas de juro não parou por aí e já se contam quatro cortes consecutivos, apesar da resposta muito negativa dos mercados e de uma desvalorização tremenda da lira (na manhã de 20 de dezembro, 1 euro era equivalente 17,23 liras e 1 dólar a 19,42 liras), ambos mínimos históricos a nível cambial. A depreciação da lira face ao primeiro dia de 2021 está em cerca de 55%, números preocupantes de desvalorização da moeda e que colocam em causa a competitividade da economia turca.

Qual é o objetivo desta estratégia económica, no mínimo, inusitada? A ideia do presidente Erdogan é desenvolver um novo modelo económico na Turquia, através do qual o país, com uma moeda mais competitiva e com taxas de juro menores, irá aumentar fortemente as exportações (muito mais baratas face a outras moedas com muito mais valor), o investimento externo no país e a criação de emprego, gerando assim um crescimento económico forte e duradouro.

Qual a posição dos mercados e da comunidade económica internacional? A posição, relativamente consensual, é que a política de Erdogan vai levar a uma situação económica difícil, através de um aumento rápido da inflação e da instabilidade financeira, num país que depende fortemente dos mercados externos.

Ora, o regime de Erdogan iniciou uma “guerra aberta” frente aos mecanismos de mercado ao instar o Banco Central Turco a tomar esta política, mas a posição não é nova e encontra no seu partido bastantes apoiantes.

Mas o que motiva Erdogan a tomar esta decisão? A resposta está dividida em dois: o combate à “ortodoxia económica” e a religião.

Erdogan afirmou recentemente, à margem de um encontro com jovens estudantes, que as taxas de juro “deixam os ricos mais ricos e os pobres mais pobres”. Esta posição face às políticas económicas de controlo à inflação vigentes um pouco por todo o mundo está também bem latente no discurso feito na televisão turca no dia 20 de dezembro, onde afirma que “não vale a pena esperar nada diferente” do Presidente face aos últimos meses.

A religião é outra variável muito presente na vida privada e pública de Erdogan. O seu partido, o AKP, é um partido marcadamente islamista e que preza por políticas que vão de encontro à doutrina islâmica. Ora, a doutrina islâmica é contra a usura, o que neste contexto significa que um aumento anormal da taxa de juro além dos valores que são considerados aceitáveis pode colocar em causa a honestidade e equidade dos assuntos comerciais de um país e a vida da sua população.

Mas Erdogan não ignora a desvalorização da moeda e o aumento da inflação fruto da sua política económica e fiscal. Nem o povo nem a oposição o deixariam. E foi neste clima de instabilidade social e de muita oposição política a fazer-se ouvir e a subir nas sondagens (a Turquia vai a eleições legislativas e presidenciais em junho de 2023) que o governo turco anunciou um aumento de 50% no salário mínimo nacional para combater a inflação e aumentar o poder de compra da população.

Uma solução temporária que não servirá para nada além de “mascarar” o problema da estratégia de Erdogan, afirmam os especialistas.

Erdogan, ciente dos problemas no país, foi mais longe nas suas medidas de combate ao aumento de inflação e instabilidade cambial ao anunciar uma medida económica sobre a qual a história não augura grande presságio: garantiu à população que irá compensar a diferença entre o valor dos depósitos em lira ante os depósitos de mesmo valor feitos em outras moedas, caso estas excedam as taxas de juro prometidas pelos bancos.

Mas o que significa isto para os turcos e como os ajuda? Significa que o Estado está a dar aos detentores de poupanças em lira do país uma garantia de que não irão perder dinheiro com a desvalorização da moeda, compensando-os de acordo com essa mesma depreciação.

Simplificando a questão, o que isto significa é que dinheiro público irá ser usado para compensar a desvalorização da moeda.

Os primeiros indícios foram bastante positivos, com a lira a dar sinais favoráveis nos mercados internacionais e valorizando fortemente, ainda longe dos valores de início do ano, é certo, mas dando sinais de retoma. Mas será esta medida suficiente e sustentável?

Olhando para a questão do ponto de vista financeiro, podemos perceber que os custos das finanças públicas vão aumentar proporcionalmente à desvalorização da moeda, um caminho perigoso que pode rapidamente levar à incapacidade de compensar os aforradores e gerar uma situação financeira insustentável.

Mas, e daqui para a frente, o que podemos esperar? Podemos esperar que a incerteza económica ainda vá durar e que as soluções de combate à inflação tendam a ser mais radicais do que até agora têm sido.

Seria uma tragédia para a economia turca, se a confiança no investimento no país caísse a pique. Se juntarmos esta quebra de confiança à situação pandémica, Erdogan ficaria numa posição política muito delicada para enfrentar os eleitores em 2023.

Há vários caminhos para Erdogan, mas todos eles envolvem um ingrediente essencial para assegurar o sucesso da experiência económica: a sua credibilidade interna.

Esta credibilidade pode ser construída de várias formas, uma delas improvável: uma admissão de culpa de Erdogan, ao instigar agora o aumento das taxas de juro por parte do Banco Central, e procurando outros mecanismos de equilíbrio económico, como um apertar da política fiscal do país ou um acordo com o FMI, por exemplo. Isto não significa abandonar a sua experiência, mas antes dar-lhe um rumo mais brando e mais “aceitável” aos olhos do mercado nacional e internacional.

Outra hipótese advém da geopolítica mundial: um apoio financeiro por parte de uma potência económica como a China ou a Rússia que possam ver vantagens em ter dívida da Turquia nas suas mãos.

Seja qual for o caminho que Erdogan escolha, uma coisa é certa: a sua experiência económica parece hoje estar mais para desastre económico e político do que para solução. E desastre não é uma opção política que Erdogan possa arriscar com eleições em 2023 e com uma oposição mais feroz do que nunca, pronta para dar um novo rumo ao país.

Por: Miguel Ferreira


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