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Artigo de Opinião: A vida serve para viver!

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Começo por citar as palavras do escritor Manuel da Fonseca: «isto de estar vivo ainda um dia acaba mal». Até prova em contrário, somos mortais (fica anotado que espero ser exceção)! Há dias reli um excerto de São Paulo- «ama e faz o que quiseres» -, mencionado nas páginas de um livro da autoria de Agustina Bessa-Luís. Infelizmente, o lema do nosso tempo afigura-se mais «compra e faz o que quiseres». Tony Judt, historiador britânico, mencionou que «há algo de profundamente errado na maneira como hoje vivemos». Tem razão! Afinal, sabemos o preço das coisas mas desconhecemos o seu valor. Queremos crescimentos económicos infinitos quando o planeta tem recursos limitados. Não sou expert em matemática mas esta equação conduz ao desastre.

Herberto Hélder escreveu que «o mundo não está para futuros». Não há futuro sem Natureza. Somos herdeiros da longa dinastia da vida. Somos descendentes dos narradores de histórias. Assim, precisamos de recuperar o coração de poeta, até da poesia. Vivo numa terra de grandes poetas e, deste modo, gostaria de citar Pascoaes: «o homem é a consciência do Universo/Pelos seus lábios fala a pedra, o nevoeiro». De facto, precisamos de ressuscitar esta dimensão bela da vida, essa obsessão saudável pela busca da beleza. No último verão, li uma coletânea de poesia arábica-andaluza, com mais de mil anos, e houve um verso que me deixou encantado. Passo a citá-lo: «a noite não é, talvez, senão a pálpebra do dia». Estas palavras permitem refletir que, muitas vezes, não conseguimos ver a outra margem, não conseguimos ver o outro lado. No sentido de colmatar esta lacuna, necessitamos de ir ao encontro do outro. A poesia é uma ponte visível e invisível entre as pessoas.   

Preocupa-me imenso o declínio dos índices de leitura no país. Precisamos das palavras, do seu poder libertador, da sua sede, do seu alimento. Sem elas ficamos reféns, confinados no cárcere do silêncio amordaçado. Os livros fazem viajar e nutrem os grandes sonhos. Neste âmbito, carecemos cada vez mais do contacto com eles, com a arte, a música, a dança e, principalmente, a beleza. Umberto Eco conta que Mussolini tentou «nacionalizar» a língua italiana mas essa Língua acabou por fugir ao ditador como areia da praia na mão. Ler e escrever são atos de pura liberdade. Porém, hoje, damos ênfase ao trabalho exacerbado, à procura obsessiva do número, da quantidade, do materialismo. Inclusive, chegamos a equacionar que novidade seja sinónimo de melhoria. Ora, nada mais errado, erro crasso! Atualmente, queremos comandar o tempo, somos o tempo, mas é o relógio que nos comanda. Urge inverter esta relação o quanto antes. Agostinho da Silva, filósofo português, fez uma alegoria do «gato», em que nos diz o seguinte: o gato não possui missão para cumprir, pelo contrário o gato cumpre-se, cumpre-se inteiramente. Devemos ressalvar esta ideia para que o ser humano se cumpra plenamente no amor, na liberdade, em suma, na própria vida. Não podemos vacilar perante a ilusão hegemónica do «ter» quando, na verdade, importa outro verbo: o «ser». De seguida, evoco oportunamente o último verso de Fernando Pessoa na obra Mensagem: «É a hora!». Sim, é a hora de mudar de vida, tempo de viver mais e melhor. Que a vida seja um enormíssimo ato de liberdade e de cumprimento da promessa que habita no coração, no coração humano, bem dentro de nós.   

Para terminar esta crónica, partilho o conselho de Agostinho da Silva para que todos, mesmo todos, sejam «poetas à solta». A vida serve para viver!

Ricardo Pereira


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