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Paredes: Crise sanitária fez adensar dificuldades grupo de doentes oncológicos “Viver Melhor”

Reportagem: Crise sanitária fez adensar dificuldades do grupo de doentes oncológicos “Viver Melhor”

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A crise sanitária que continua a atingir a região e o país está  também a criar inúmeras limitações ao grupo de doentes oncológicos “Viver Melhor”, grupo sedeado em Paredes, que tem cerca de três anos de existência e que nasceu com o apoio da autarquia paredense.

Sem atividades há cerca de um ano, Teresa Carvalho o rosto deste grupo, que integra doentes oncológicos de vários concelhos da região, assumiu que o grupo vive dias difíceis adensados pela facto do grupo correr o risco de ficar sem as salas da Escola do Oural, que têm servido para o grupo se reunir e fazer as suas atividades.

“Além da atividade estar suspensa não sei quando é que poderemos retomar, temos uma outra questão complicada e que nos está a preocupar que são as instalações. Estamos numas instalações emprestadas pela câmara municipal, na escola primária do Oural. Houve uma candidatura para essa escola que será uma creche no futuro e o grupo de doentes oncológicos “Viver Melhor” terá que sair, mas acredito que o presidente da câmara municipal será sensível a esta nossa preocupação  e irá, com toda a certeza, tentar encontrar uma solução para este problema”, disse, salientando que o grupo necessita com urgência deste espaço.

Fotografia: Câmara de Paredes

“Ainda não sabemos quando é que teremos de sair, se será daqui a um mês, daqui a meio ano, mas acredito que o presidente da Câmara de Paredes nos irá ajudar, conhece  o grupo e está solidário com a nossa causa e irá ajudar-nos a encontrar uma resposta para que possamos continuar a desenvolver as atividades, ter um espaço para acolher os utentes até porque começamos  com o  exercício físico e o apoio psicológico, mas o programa já se estendeu para outras atividades”, disse, reforçando que esta é uma questão premente.

“É uma questão premente porque não sabemos se as obras começam para a semana se vão iniciar daqui a um ano. Temos duas salas e acho que não vamos ficar com as malas à porta. Pretendíamos apenas um espaço , o mais próximo possível da sede do concelho porque a maior parte destes doentes não têm formas de se deslocar. Mas, como disse, acredito que o presidente da câmara vai ser sensível a esta questão até porque tínhamos convívios que deixamos de ter. O último encontro que tivemos foi um ligeiro assinalar do grupo em março do ano passado”, frisou, reiterando o apelo a Alexandre Almeida para que ajude o grupo a continuar a sua missão, assim como as suas atividades em prol dos doentes oncológicos.

Falando do grupo, Teresa Carvalho realçou que a maior parte dos elementos que o integram são pessoas com diferentes tipos de cancro,  com problemas distintos, que encontraram no grupo e nos demaisdoentes oncológicos uma motivação acrescida, um meio para partilharem experiências, problemas e de se entreajudarem.

Teresa Carvalho assumiu que o grupo de doentes “Viver Melhor” tem vindo a crescer, também, em termos de elementos.

“Começos por ser um grupo pequeno, que se foi alargando, entretanto, algumas destas pessoas tiveram recidivas, ainda  se encontram doentes, estão a passar por momentos bens difíceis, outros preparam-se para fazer mais cirurgias e muitas outras pessoas próximas da escola onde estamos juntaram-se a nós. Chegamos a ter de sair das instalações da escola para o exterior por já não ter condições para ter tanta gente. Neste momento, como temos todas essas pessoas que não faziam parte do grupo, mas que acolhemos porque se sentem bem no nosso seio, é difícil qual o número exato de pessoas que, entretanto, já se juntaram ao grupo”, afiançou.

Questionada sobre o estado de espírito dos utentes e de um eventual regresso às atividades, Teresa Carvalho admitiu que a maior dos utentes está ansiosa que o exercício físico seja retomado, assim como as atividades que o grupo  fazia antes da crise sanitária.

“Evidentemente que estamos a falar de um exercício físico que é adaptado às patologias e à especificidade de cada utente, mas estamos a falar de doentes de risco, com a agravante de que a grande maioria ainda não foi vacinada. Não queremos correr riscos, quando se tratam de pessoas de risco, nem apontar uma data para uma possível retoma das atividades, enquanto esses utentes não forem vacinados. Obviamente que se estivermos a falar num espaço ao ar livre é uma coisa, agora confinar estes doentes, com todas as vulnerabilidades que lhes são conhecidas, isso não poderemos fazer por mais arejados que possam ser esses espaços porque, como referi, estamos a falar de doentes de risco”, acrescentou.

Fotografia: Câmara de Paredes

Ainda sobre as atividades do grupo, a porta-voz do grupo apontou os convívios, a ida ao Preço Certo, a deslocação a Fátima e outras como algumas das mais emblemáticas que marcaram a curta história deste gupo e que todos almejam repetir.

“Recordo-me que o grupo há cerca de dois anos realizou uma caminhada em prol das crianças com problemas oncológicos do São João que foi um verdadeiro sucesso, encheu as artérias da cidade de Paredes e mobilizou a comunidade  local e não só. Conseguimos cerca de 21/22 mil euros para adquirir aparelhos de monitorização para as crianças”, expressou.

“Falo com muitos destes utentes, alguns aproveitam para falarem dos seus problemas, inclusive, alguns já têm familiares com problemas oncológicos, temos um grupo privado em que colocamos dúvidas, questões, partilhamos soluções”

Teresa Carvalho reconheceu que o facto dos utentes estarem privados da prática do exercício físico, assim como o facto de estarem privados da motivação que encontravam no grupo impacta com aquilo que é o estado mental e psicológico dos utentes.

“Falo com muitos destes utentes, alguns aproveitam para falarem dos seus problemas, inclusive, alguns já têm familiares com problemas oncológicos, temos um grupo privado em que colocamos dúvidas, questões, partilhamos soluções. Ainda esta semana saiu uma lei a propósito da atribuição do atestado de incapacidade multiusos a que infelizmente todos eles têm direito e nesse grupo privado aproveitamos para partilhar esse tipo de coisas, da legislação, para que possamos estar a par das medidas que os possam beneficiar. Isto para dizer que a maioria está com bastantes problemas e confesso que não sei como podem ser ultrapassados”, concretizou.

Sobre o apoio psicólogo que era prestado, Teresa Carvalho declarou que o grupo dispunha de uma psicóloga que fazia sessões de grupo que serviam de  alguma forma para partilhar  questões, problemas e minimizar situações que até  situações que surgiam de convivência com a família e do agregado familiar  e que através destas sessões eram trabalhadas.

“Nestas sessões, os utentes podiam partilhar todos os problemas e questões que os inquietavam porque a doença por si só já não é fácil, a doença em casa também é, por vezes,  difícil de gerir porque o apoio dos familiares, muitas vezes, nem sempre é compreendido e estes temas são todos analisados nestas sessões de grupo. Quero também desfazer um mito que muitas vezes existe que é o de que o grupo não foi feito para falar de doenças, pelo contrário, fazemos muitos convívios, já fizemos uma peça de teatro, já tivemos  aulas de dança e apresentamos em público duas coreografias. Participámos uma vez nas festas da cidade, vendendo pequenos objetos feitos pelos utentes e em ateliers de pintura. Procuramos encontrar o máximo de soluções para que tenham a melhor qualidade de vida possível”, manifestou.

“O grupo dispõe de outras ferramentas que muitas vezes não existem em casa e muitas vezes não é fácil partilhar estas situações em casa”

Referindo-se ainda ao apoio da família e à dificuldade que muitos utentes têm para abordar e até partilhar esses problemas  junto do seu cônjuge e agregado familiar, Teresa Carvalho admitiu que o grupo “Viver Melhor” dispõe de outras ferramentas que permite ao portador de doença oncológica mais facilmente desabafar ou ultrapassar a situação que o está a inquietar.

Fotografa: Câmara de Paredes

“O grupo dispõe de outras ferramentas que muitas vezes não existem em casa e muitas vezes não é fácil partilhar estas situações em casa. Muitos doentes acabam até por não abordarem determinados problemas ou situações em casa e acabam por se fechar neles próprias e vão andando com antidepressivos, medicação atrás de medicação, não conhecendo que temos esta solução. Isto foi uma novidade. É raro existirem grupos para apoiarem  doentes oncológicos e se mais gente soubesse da sua existência mais utentes teríamos”, confessou.

“Infelizmente o cancro está a surgir todos os dias e com o Covid.-19 isto vai piorar”

Teresa Carvalho deixou, também, um alerta para o facto do número de cancros estarem a aumentar e para o facto da crise sanitária, de alguma forma, ter contribuído para mascarar uma realidade que teme possa vir a ter repercussões agudas naquilo que é a patologia e a qualidade de vida destes utentes.

“Infelizmente o cancro está a surgir todos os dias e com o Covid.-19 isto vai piorar. A crise sanitária veio mascarar esta situação. As pessoas não estão a fazer exames, os diagnósticos deixaram de ser feitos, as consultas estão a ser constantemente adiadas e acho que isto não vai correr bem. Iremos ter grandes surpresas e não serão boas porque infelizmente o cancro foi ficando para trás. Fomos falando do Covid-19 porque isto era uma coisa nova e também na tentativa de encontrar as melhores soluções para isso, mas o cancro foi ficando para segundo plano. Recebi uma carta a cancelar uma consulta da minha mãe que dizia que seria remarcada oportunamente. Estive uma semana a ligar para o Serviço de Oncologia do Hospital de São João para saber se precisasse de algo, se surgisse uma urgência, aonde é que tinha de dirigir e não obtive resposta. Nunca me atenderam o telefone. Enviei um email também não obtive resposta, enviei um segundo email  e também não obtive resposta. Passado um mês optei por tomar uma outra atitude e no dia seguinte obtive resposta. A médica da minha mãe estava de baixa médica e não sabia a quem é que me havia de dirigir. Se a minha mãe tivesse uma dor estanha, não sabia com quem é que havia de falar. Há uma falta de acompanhamento que está a ser ultrapassado felizmente, mas os diagnósticos ficaram por fazer, as consultas ficaram por fazer e com sequelas ao nível da patologia desses doentes”, atalhou.

Apesar das dificuldades e das incertezas, a porta-voz do grupo manifestou, por outro lado, estar expectante que seja possível recuperar as atividades, mas isso dependerá da vacinação e da nossa capacidade para combater a doença.

“O nosso lema é viver melhor, desistir nunca e quero acreditar que em breve iremos conseguir retomar a atividade. Como disse, as atividades estão suspensas, estamos a falar de pessoas de risco, de doentes oncológicos, com inúmeras vulnerabilidades e a nossa prioridade passa por protegê-las. Optamos por criar um grupo no facebook onde vamos divulgando a nossa atividade, partilhamos dúvidas, problemas, mas enquanto se mantiverem estas restrições, não podemos ir muito mais longe”, avançou.

António José, doente oncológico, com um cancro no pâncreas, natural de Penafiel, a residir há 18 anos em Paredes, reiterou o apelo da porta-voz do grupo ao presidente da Câmara de Paredes para que Alexandre Almeida ajude o grupo a conseguir os seus intentos, possa rapidamente encontrar uma solução que possibilite que continuar a desenvolver as suas atividades.

Falando do cancro do pâncreas, António José recordou que a doença foi-lhe diagnosticada em 2016.

“Era uma pessoa saudável. Tudo aconteceu quando fui à casa de banho e ao urinar apercebi-me que a urina era tipo Coca-Cola. A partir fiz todos os exames para perceber a origem do problema. Fui operado, a situação correu mal, a primeira operação não coreu bem, a segunda mais ou menos, fui novamente operado a dois e a nove de fevereiro de 2017 e a 09 de março de 2017 fui novamente operado. A recuperação foi muito lenta, cheguei a uma altura em que desejei morrer, mas com a ajuda da minha mulher que me acompanhou e da médica Mónica Rocha, assim como dos auxiliares, consegui ultrapassar as dificuldades iniciais”, afiançou.

António José confirmou que além das sequelas físicas, a doença tem um impacto na estabilidade emocional das pessoas, contribuindo para o desgaste mental dos seus portadores, adensando os muitos problemas que a maior parte dos doentes oncológicos têm de enfrentar.

“Ficamos fechados em nós mesmos, passamos por uma fase de morte e acontece que muitas vezes os nossos familiares não querem que pensemos nisso, mas precisamos de desabafar. Digamos que é um barco que se destrói e tentamos apanhar aquelas tábuas para reconstruir uma jangada e os nossos familiares quase que não nos deixam que passemos por esse processo de reconstruir não um barco, porque o barco já não é o mesmo, mas uma jangada”, referiu, acrescentando: “Aquilo que nós temos é como um vulcão e precisamos de desabafar e nem sempre temos quem nos ouça”.

António José concordou que o grupo de doentes oncológicos “Viver Melhor, no seu caso, foi determinante para a sua recuperação e ajudou-se a resolver muitos dos problemas que a doença lhe provocou.

“Com o grupo Viver Melhor há essa abertura  e não temos medo de falar daquilo que se passou”, manifestou, realçando que no início hesitou entrar para o grupo, mas a força  e a resiliência em encontrar apoio levou-o a mudar de ideias.

“Não conhecia o grupo Viver Melhor, fiquei a conhecer a partir de panfletos que a autarquia expôs em vários locais públicos. No início hesitei, mas depois acabei por começar a frequentar o grupo. Pensei vou falar com pessoas que também têm o mesmo problema e até vou aprender formas de ultrapassar este problema”, sustentou, reconhecendo que os doentes oncológicos, regra geral, pensam que vão morrer, e que o seu problema é sempre o mais grave.

“Há uma doente oncológica que admiro pela forma como enfrentou a doença, que fez várias quimioterapias, mas cuja determinação e resiliência é um exemplo para todos.  O meu problema do pâncreas deixou de ter a importância quando conheci a sua história. Quando se tem cancro, a primeira coisa  que o doente oncológico pensa é que vai morrer”, afirmou, sustentando que com a entrada no grupo passou a participar nas atividades do grupo, no grupo de psicologia e nas aulas de exercício físico.

“Perdi 20 quilo. Pesava 86 passei para 66. O cancro quase que nos tira a autoestima e quando nos tira a autoestima, uma pessoa também não quer sair de casa. Como o grupo Viver Melhor saímos de casa e convivíamos. Desenvolvíamos várias atividades, fomos à Santa Rita, fomos a Fátima, ao Preço Certo, conseguimos criar um grupo unido que estava a viver os mesmos problemas e é claro que isso ajuda muito. O grupo dá-nos esse alento”, confirmou.

Interpelado sobre o momento que o grupo vive, a ausência de atividades , devido à crise sanitária e às limitações em vigor, António José concordou que esta situação para muitos dos doentes oncológicos acaba por não ser novidade.  

“Esse isolamento já o vivíamos. A grande ajuda que tínhamos era o convívio que o grupo Viver Melhor nos dava. Espero que as atividades sejam retomadas o quanto antes e peço ao presidente da câmara municipal para que dê esse passo e nos arranje instalações. Não é pedir muito. Uma sala para fazermos as nossas atividades e estarmos reunidos. Apelo ao presidente da Câmara de Paredes para que não deixe este projeto acabar “, desabafou.

Além das sessões de psicologia de grupo e do exercício físico, fazem parte do rol de atividades do grupo, o teatro, a dança, tendo já organizado ateliers de pintura, atividades como costura e outras, assim como  palestras/debates e convívios.


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