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BE Lousada promove ciclo de debates sobre cultura. Professora disse que “há artistas a passar fome”

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Fotografia: Bloco de Esquerda Lousada

O Núcleo do Bloco de Esquerda Lousada iniciou um ciclo de debates online através da plataforma Zoom, com vários intervenientes ligados a esta temática.

O primeiro debate, moderado por Gerson Moura, teve como tema O mau “Estado” da cultura, e contou com a presença do músico Rui Reis, de Pedro Tavares, também músico e presidente da LSD Bookings, o ator Luíz de Oliveira e a artista multidisciplinar e escritora Marta Moreira. No final houve um tributo a José Afonso, com o teclista e compositor Duarte Souza e a vocalista Paula Teles.

Citada em comunicado, Marta Moreira, professora do ensino artístico especializado, e umas das mais interventivas no debate, começou por dizer que “ao contrário de outros setores que estão fechados, mas continuam de alguma forma a conseguir trabalhar, a cultura está paralisada. Nós estamos impedidos de trabalhar. Esta é uma expressão que uso com frequência, porque me parece realmente importante”.

O Bloco de Esquerda refere que Marta Moreira referiu seguidamente que “há aqui um certo preconceito para com a figura das pessoas que vivem da arte e da cultura. Não só os artistas, mas os criadores, os técnicos, toda a cadeia, digamos assim. Há um certo preconceito que eu acho que permanece muito na cabeça das pessoas de não ver estas pessoas como trabalhadores. Porque têm, enfim, um conjunto de condições de trabalho substancialmente diferentes, isso faz com que se calhar – e agora refiro-me da à tutela – que haja uma certa negligência para com a maneira como estas pessoas vivem”.

A professora atirou ainda: “estamos a falar de pessoas que passam fome e que nunca tiveram um contrato na vida e que de repente não têm rigorosamente nada”.

Referindo-se à estratégia do Estado para com a Cultura, o BE avança que a docente e artista sublinhou:  “Acho que se conhece muito bem o valor da cultura, nomeadamente o grande papel que desempenha na resistência e o perigo, para mim, está aí, ou seja, se calhar isto é uma abordagem um bocadinho polémica, mas eu vejo a atitude do estado com um certo cinismo para com a cultura. É muito mais fácil, acho eu, nós vivermos numa sociedade em que as pessoas não têm o mesmo sentido crítico, o mesmo sentido do belo, a mesma capacidade de questionar, do que o contrário. Eu vejo aqui nuances, de certa forma, deliberadas. Não consigo afirmar com propriedade que é um plano em marcha, mas vejo que há aqui, enfim, indícios muito perigosos”.

Colocando a tónica da sua intervenção na “necessidade de mudança do paradigma cultural em Portugal”, Marta Moreira disse que “isso só vai mudar quando nós mudarmos esta lógica concursal. Portanto, os concursos de apoio à criação, de apoio à circulação, à edição fonográfica, enfim, tudo isso – esses apoios devem existir, para quem está em início de carreira, ou para quem está a fazer projetos individuais que não têm estrutura por trás. Mas, faz sentido estruturas com décadas de existência, décadas de trabalho reconhecido de intervenção nos meios em que se inserem, terem de concorrer todos os anos, ou de dois em dois anos, para um apoio? Não, essas estruturas são a estrutura cultural do país. Então o que se propõe nesse cenário é um investimento de fundo e é um investimento de fundo perdido, porque a cultura é uma coisa onde é preciso investir e não esperar um retorno económico. E isto é uma coisa que acontece na Alemanha, que acontece em França, que acontece até em Espanha. Portanto não é nada de novo, nem se chocante, nem de Esquerda, é um princípio elementar dos direitos humanos, creio”.

Fotografia: Bloco de Esquerda Lousada

O Bloco de Esquerda concretiza que mantendo um discurso cáustico e incisivo, Marta Moreira declarou em relação ao Plano de Recuperação e Resiliência europeu: “O estado vai investir 1,8 biliões de euros que nos vêm da Europa, e estão zero euros alocados à cultura. Isto não se trata só de dizermos que os artistas estão a passar mal, isto trata-se de estarmos com uma estratégia de embrutecer um povo”.

A professora assumiu que  o “arte tem uma série de papéis a desempenhar absolutamente fundamentais”.

“Considero, como pessimista inconformada que sou, que estamos realmente a atravessar um ponto de viragem muito perigoso na História da humanidade até aqui e considero que a Arte, como sempre, é o último reduto. É aquilo que nos trás as coisas que neste momento nos estão a ser roubadas, como o Luís disse, a empatia. E acho que a Arte tem uma série de papéis a desempenhar aqui absolutamente fundamentais. Este é apenas um deles, mas podíamos esmiuçar muito mais. Não acredito que seja com as mesmas soluções “penso rápido” que tivemos até aqui, tipo “raspadinha património”. Acho que enquanto não exigirmos coletivamente um Orçamento de Estado digno e aquilo que outros setores vão ter da União Europeia, enquanto não tivermos estas duas coisas não poderemos partir para outras soluções. Acho que essas soluções poderão ser soluções, quando a base estiver feita. Ninguém começa casas pelo telhado”.

Citado em comunicado, Rui Reis, músico e professor sublinhou que a “cultura é um setor muito frágil e extremamente precário em Portugal, onde os apoios são escassos, existindo resiliência pelo amor que os artistas têm à sua arte. A cultura já era um setor frágil, com a pandemia tornou-se uma tragédia. Rui Reis está muito preocupado com o futuro das bandas filarmónicas, ranchos folclóricos, coros e grupos de cavaquinhos. São estes grupos que garantem que o ensino da música a toda a população e no último ano, não têm concertos e os ensaios são escassos”.

“Por último, defendeu que são necessárias reformas educativas, para que o ensino das disciplinas relacionadas com a arte e cultura sejam valorizadas. “Urge arranjar solução de saber viver com a pandemia e não sobreviver”, lê-se no comunicado do BE.

“É verdade que os artistas têm um problema de sobrevivência, mas é preciso atender à necessidade da sobrevivência da cultura em geral, que é um dos pilares fundamentais de cada soceidade e não se fica pelos artistas”, afiançou Rui Reis.

“Pedro Tavares, presidente da associação musical LSD Bookings começou com esta tirada: “há falta de financiamento para a cultura e o que há é mal aplicado” e acrescentou que “somente cerca de 0,25% do orçamento de estado foi atribuído à cultura”. Este jovem músico e dirigente chamou a atenção para o facto de “a cultura não são só os artistas em palco, a maior parte das pessoas envolvidas na cultura ninguém as vê” e são muitos milhares”, acrescenta o Bloco.

O Bloco avança, ainda, que na linha dos restantes oradores, também Pedro Tavares considera que “na educação a cultura fica para depois, o nosso ensino é programado para ensinar matemática e português e o restante é secundário”, tendo salientado que “vemos as aulas de, por exemplo, educação visual como aulas para alunos que querem seguir artes no futuro, e não as vemos como aulas para sensibilizar alunos para as artes”.

“Desde há muito tempo que se confunde cultura com pessoas de classe média ou alta, a palavra cultura era confundida com poder económico, porque só as pessoas com algum poder económico é que tinham acesso à cultura e ainda não se conseguir trazer o verdadeiro significado à palavra (cultura)”, precisou.

De acordo com o Bloco, Pedro Tavares destacou  que “a sociedade precisa tanto de cultura como de “pão para a boca”, enquanto não conseguirmos ter uma educação que forme as pessoas nesse sentido nem o investimento necessário vamos continuar com problemas sérios”

“Os agentes culturais em Portugal têm que perceber que programar (uma agenda cultural) é trazer conhecimento à população. No caso dos festivais, muitos com financiamento estatal, repetem-se cartazes e géneros musicais e os jovens passam a juventude a ouvir o mesmo”, atalhou.

“Temos que lutar por melhores apoios e apoios muito concretos para a cultura e fazer uma restruturação séria daquilo que é o futuro da cultura em Portugal e no mundo”, acrescentou.

Pedro Tavares recordou que “a 18 de Maio entrou em Portugal em vigor a Lotaria do Património que servirá para angariar fundos para a conservação dos vários monumentos em Portugal, em França isto já existe. Portanto são dois países com muita história, com muito património, que são obrigados a recorrer a este tipo de iniciativas para conseguirem preservar a sua história e a sua cultura. Acho que temos que pensar muito seriamente sobre o que é o futuro, não da cultura, mas da sociedade porque como já disse aqui a cultura é o ADN e a identidade da sociedade”.

O ator Luíz Oliveira, citando o criador do teatro nacional, Almeida Garrett, disse que “o teatro é um grande meio de civilização mas não prospera onde ela não há e como não temos esse sentido de civilização, torna-se difícil o teatro prosperar, ainda pior neste tempo de pandemia, em que o social se ressente e a cultura fica para terceiro, quartou ou quinto lugar porque não faz falta onde não há civilização que a privilegie”.

“Sou crítico do fecho das livrarias porque ler faz falta assim como faz falta ver e sentir os livros. Não concebo que supermercados possam vender livros e as livrarias fiquem fechadas”, assinalou.

O ator para chamar a atenção para a necessidade de ajudas para a cultura vincou ainda:  “Somos 130 mil profissionais de teatro, desde técnicos de som e luz, aos atores e muitos outros. Contribuímos para a felicidade de um país, para a sensibilidade, que é algo fundamental que o teatro dá. Para que um povo seja melhor as artes e a cultura em geral tornam o ser humano mais atento e sensível”.

“Os apoios ou subsídio não são para o teatro, são para o público. Quando o Estado apoia uma companhia ou um projeto teatral, está a investir na sua população. Por exemplo, se não houvesse apoio, um teatro que custa 10 ou 12 euros custaria 60 euros”, afirmou.

“A frase «a cultura é segura» que o teor usou em 2020 era uma realidade, mas não atenderam a isso. Em contrapartida o estado cedeu ao lobby da televisão por exemplo”, acusou.

O Bloco esclareceu que depois do debate realizaram-se dois momentos musicais por dois destacados músicos lousadenses, o teclista e compositor Duarte Sousa e a vocalista Paula Teles, que apresentaram duas versões de “Que o amor não me engane” e “Canção de embalar”, de Zeca Afonso.

O ciclo de debates prossegue este mês.


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