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A preparação Mental do Operacional Bombeiro

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Estamos no ano da graça de 2020 do século 21, o vírus Covid – 19 chegou, parou o mundo e não estávamos preparados!

De uma forma geral todos se viram a enfrentar algo desconhecido e com isso, acumular grandes níveis de stress.

Recorrentemente ouvimos as pessoas aqui e ali a desabafarem dizendo “estou com muito stress”, não consigo dormir as mesmas horas que dormia antes do vírus, deve ser do stress”.

Mas na maior parte das vezes, a resposta de outros perante este “pedido de ajuda” é: “o stress está na tua cabeça!”, “O stress está na tua mente, relaxa que isso passa!”

Pois bem, é uma citação altamente filosófica mas não resolve o problema do outro, e que, em algum momento também é poder o nosso problema, ninguém fica indiferente a este vírus.

Os operacionais da proteção e socorro não são diferentes, apesar de a maior parte das pessoas pensar que não, pelo facto de trabalharem em situações de elevado stress regularmente.

Sou Sapador bombeiro, Técnico Europeu de Segurança Contra Incêndios em Edifícios e formador de Combate Incêndios Urbanos e Industrias, tenho mais de 20 anos de carreira, dou formação especializada há mais de 16 anos e ao longo da minha ainda curta carreira aprendi muito, mas uma coisa tenho a certeza, ainda tenho muito para aprender!

Do que aprendi tenho uma certeza absoluta, por muito treino que o Operacional Bombeiro tenha, nada o prepara para o desconhecido, não é por acaso que lhe chamamos de “desconhecido”.

Quando o Operacional Bombeiro enfrenta algo desconhecido, socorre-se apenas da sua experiencia e treino, não pode recorrer ao conhecimento, pelo simples facto de se tratar de algo desconhecido, logo não existe conhecimento disponível e desta forma fica dependente da sua capacidade de avaliação para decidir de forma assertiva perante algo desconhecido, mas essa ocorrência vai com toda a certeza ficar guardada na mente do operacional seja pelos melhores ou pelos piores motivos, ninguém esquece quando enfrenta algo desconhecido.

Ao longo dos anos e pela quantidade de pessoas com quem partilhei experiencias operacionais ou formativas fiquei com uma certeza, os Sapadores Bombeiros são uma estrutura fortemente hierarquizada e disciplinada, atributos adquiridos quando a classe estava integrada no ramo militar Exército, atributos esses que ainda hoje são doutrina. Os sapadores Bombeiros, atualmente são uma força desmilitarizada mas categorizada de “Corpo Especial da Função Publica” e isso, na minha opinião é sem dúvida uma mais-valia na resposta operacional, no entanto nem tudo são rosas.

Em Portugal existem Unidades orgânicas de Sapadores Bombeiros e Corpos de Bombeiros Sapadores, a diferença está na sua génese, as unidades orgânicas de Sapadores Bombeiros nasceram no ramo militar a alguns séculos atras e mais tarde em 1993 foram desmilitarizadas, hoje são Corpos Especiais da Função Publica. Os Corpos de Bombeiros Sapadores nasceram como departamentos municipais de bombeiros e hoje são Corpos Especiais da função pública, com a entrada em vigor do decreto-lei 86/2019.

A doutrina militar enraizada nos Sapadores Bombeiros leva a que os seus operacionais criem desde o início da carreira um “escudo mental” contra os “ fantasmas do serviço”.

O Sapador bombeiro não parece muito interessado em partilhar sentimentos que o afetaram durante ocorrências complicadas, quando enfrenta vítimas mortais ou feridos graves, é “convidado” a admitir que a condição mental desempenha um papel importante no curso da intervenção, mas que depois, no “pós ocorrência” já não é assim tão importante a condição mental. Não concordo nada com isso!

Uma situação de emergência pode gerar stress por um longo período de tempo. Com efeito, o carácter “urgente” de uma situação de emergência exige uma tomada de decisão rápida e com objetivos precisos, desencadeando um aumento da pressão nos operacionais, aumentando de forma muito significativa em função dos riscos associados á dinâmica da ocorrência.

Com base na minha experiencia operacional e enquanto formador, estou convicto que os danos psicológicos podem ser suavizados com treino especifico, preparação mental durante a recruta e ao logo da carreira no âmbito do aperfeiçoamento técnico. Além disso, esta preparação permitiria aos intervenientes compreender a intervenção e, sobretudo, saber com o que podem ser confrontados psicologicamente, consciente e inconscientemente, para se protegerem dos mecanismos protecionistas e empíricos do nosso cérebro. O objetivo é aumentar significativamente as suas habilidades analíticas em situações de elevado stress, a fim de reagir melhor e evitar o tão comum perigo nos jovens Sapadores Bombeiros carregados de virilidade absoluta adquirida nas redes sociais ou a síndrome do “Super-homem”.

O caráter individual faz a diferença no momento de gerir uma situação de elevado stress; os operacionais bombeiros não são todos iguais na intervenção.

São todos diferentes, na sua capacidade de responder a uma emergência apesar de usarem o capacete e o uniforme da mesma cor e características técnicas, no entanto os mecanismos que afetam a capacidade de resposta numa emergência têm um impacto idêntico. É a capacidade de lidar com essas consequências que difere de um indivíduo para outro. Os mecanismos de defesa como o espanto ou a transmissão do stress, como a agitação coletiva, afetam todos os indivíduos intimamente ligados à ocorrência.

No entanto, o efeito é diferente e está relacionado com vários parâmetros específicos de cada indivíduo: experiência pessoal, formação técnica, experiência profissional, proximidade com a situação, etc. Indivíduos treinados no reconhecimento desses mecanismos também são afetados, mas estão mais capazes de controlar os seus efeitos e, portanto, de manter a lucidez necessária para sua salvaguarda mental e eficiência operacional.

As ações de resposta de um operacional numa situação de “emergência” são, portanto, definidas pela sua formação técnica de base, o seu caráter, e o seu aperfeiçoamento técnico ao longo da carreira, estes aspetos levam a diferentes formas de comportamento perante o mesmo problema. O “molde do bombeiro” é então um mito que de facto só existe na “ficção” da vida real, pois o stress da vida real é bem diferente e muito mais difícil de gerir do que muitos pensam, considero que o treino e a formação específica na componente mental é uma área ainda ignorada em alguns setores das estruturas dos bombeiros.

A preparação mental do Operacional Bombeiro está ligada à sua construção psíquica, desde do jovem bombeiro até ao bombeiro adulto. Esta construção é totalmente individual e abrange  domínios complexos, conscientes e inconscientes de processos relativos à mente, inteligência, afetividade e vontade. A mente é, portanto, considerada uma nebulosa complexa e aleatória que só pode interessar a profissionais da psicologia. Não sou psicólogo e não pretendo de forma alguma substituir os clínicos, mas estou convicto de que a psicologia e os bombeiros devem de caminhar juntos na construção mental do operacional. Ser um sapador bombeiro não está ao alcance de qualquer um, não basta querer, é preciso poder!

Os sapadores bombeiros de hoje em dia mostram pouco interesse neste campo muito abstrato da psicologia do bombeiro, porque “pensam” não ser uma mais-valia operacional, uma vez que a força física e a agilidade técnica parecem ser os campos mais nobres e necessários à atividade operacional. No entanto, acontece que o seu comportamento e a sua gestão emocional podem ser a causa de acidentes graves e ou fatais.

O desempenho ineficaz é o resultado da ação desencadeada por uma análise que foi distorcida por uma emoção ou sensação desagradável naquele exato momento, é de fato um erro de julgamento gerado por uma diminuição da sua lucidez ou da sua capacidade de análise desencadeada pela gestão descontrolada de uma emoção. Essas incidências mentais podem começar a afetar as suas capacidades de análise, até perder a paciência e o controle da situação. Com base no princípio de que só podemos apreender rápido o que já experimentamos e aprendemos a executar, por que não preparar nosso cérebro para lidar com novas emoções que induzem a ansiedade como fazemos com as nossas mãos quando aprendemos um novo nó da corda?

O momento de uma operação de combate a incêndio estrutural em que os bombeiros estão mais expostos aos riscos é quando colocam um aparelho de respiração autónomo isolante (ARICA) para entrar num local com insuficiência de oxigénio e onde toda a vida está comprometida. O facto de o bombeiro estar ciente disso já provoca ansiedade. Esse episódio que nos provoca ansiedade geralmente é ultrapassado pelo facto de estar ali para fazer o que mais ninguém pode fazer por ele. Este sentimento é reforçado pelo respeito e admiração demonstrados pela população, efeito esse, que o incentiva a correr riscos sem ter consciência do risco.

O seu equipamento de proteção individual, bem como os seus meios de combate estão cada vez mais eficientes, e por vezes podem perturbar o seu julgamento e a sua avaliação do risco. A falta de experiência operacional limita a sua capacidade de análise do risco, um bombeiro jovem não deve ficar sozinho em situações de elevado risco. Todos esses fatores diminuem o seu medo do perigo e seu nível de vigilância.

O homem sobreviveu na terra porque teve medo e aprendeu a temer e portanto, a evitar o perigo. O homem moderno vive com conforto e esqueceu os medos primários que lhe permitiram sobreviver. Quando se depara com esses medos, não consegue enfrentá-los e não sabe muito bem qual o comportamento a adotar, podendo perder a lucidez ou mesmo a razão.

Uma situação pode parecer provocadora de ansiedade para alguns e não para outros, daí que uma comunicação via radio entre os operacionais, pode devido a uma transmissão de informação considerada normal para o transmissor, ser sentida como muito provocadora de ansiedade pelo recetor. É necessário que essa noção de transmissão de ansiedade seja percebida por todos a fim de preparar os bombeiros para se protegerem dos efeitos nocivos de uma verbalização ou de uma ação inadequada durante uma operação. Mandar está ao alcance de muitos, mas comandar está apenas ao alcance de alguns. Dar ordens aos berros não resolve nada e cria mais stress nas equipas a trabalho, falar uma comunicação radio num  estado de ansiedade elevado não vai ser eficaz e vai ter um efeito negativo nas equipas a trabalho.

Estes aspetos são ainda mais importantes, quando são os elementos das equipas de socorro que são afetadas pelo desastre e ficam feridos. A carga emocional neste tipo de ocorrência é sempre muito elevada e difícil de gerir, já passei por isso, sei muito bem do que estou a falar.

Nestas situações o risco dos operacionais será máximo e as regras de segurança por vezes são descuradas para evitar que o socorro ou o resgate seja atrasado ou impossível de realizar em tempo útil. Existem, portanto, dois principais fatores de elevado stress emocional, o contacto direto e o contacto indireto.

Durante uma operação de combate a incêndios estrutural, os operacionais mais expostos ao contacto direto são os que estão na linha de frente. As equipas de ataque que utilizam o aparelho respiratório isolante são aqueles que reúnem mais informações e que sentem as sensações mais stressantes, calor, humidade, gritos, ruídos, etc.; para não mencionar a progressão de vapores tóxicos e altamente inflamáveis. Os operacionais que permanecerem fora da área afetada diretamente pelo fogo, estão sujeitos à transmissão de informações e às ações dos operacionais diretamente envolvidos no ataque ao fogo, por esse motivo estão indiretamente envolvidos no stress por meio desta comunicação. Como os riscos geralmente estão muito mais concentrados na área do combate direto, a ansiedade gerada pelas equipas de ataque é indiretamente sentida e transmitida aos elementos das equipas de apoio externos, principalmente no nível hierárquico de comando. Esta zona de perigo é o local de todos os riscos e problemas de acidentes para operacionais envolvidos. No caso de algum problema, a transmissão de informação e a rapidez como flui na cadeia de comando operacional entre as partes evolvidas é essencial.

Por vezes, os acidentes são agravados pela falta de comunicação e transmissão de informação entre os operacionais. Quando é esse o caso, ocorre uma quebra na cadeia de comando operacional, um período de muita ansiedade e turbulência, que pode levar alguns operacionais a agirem sob impulso emocional. Portanto, está claramente comprovado que as suas reações e o seu comportamento são o reflexo da sua capacidade de manter a calma e, principalmente, de controlar as suas emoções e o seu comportamento.

Quando a sua sobrevivência não é ameaçada, as informações são transmitidas com mais calma e deste modo são melhor processadas pelo cérebro. Quando essa informação é acompanhada de dor, ansiedade, nervosismo, os efeitos do bloqueio podem ser muito rápidos e criar um padrão reativo muito violento, agressividade, pânico, agitação, perplexidade, fuga cega, etc. O cérebro é influenciado pelas sensações e pela forma como conseguem controlar as emoções.

É muito importante compreender o funcionamento do cérebro (de forma simplificada, porque não somos cientistas) e as diferentes partes de processamento da informação, para aprender com humildade a controlar as suas emoções de forma positiva.

Se a sua sobrevivência estiver comprometida, o seu cérebro assume o controlo exclusivo de todas as funções cognitivas e responde imediatamente e instintivamente, sem análise ou empatia. O sofrimento e a lesão aumentam significativamente o tempo de resposta. Assim, se uma equipa de dois elementos ficar presa pela propagação de um incêndio no 6º andar de um edifício e começar a sofrer queimaduras pode tomar a decisão fatal de desistir de lutar pela  vida como equipa se os seus caminhos de fuga não estiverem acessíveis. Os dois membros da uma equipa “bloqueados” pelo fogo não vão conseguir ajudar-se um ao outro, pois estão totalmente obcecados com sua própria sobrevivência. Só quando está fora de perigo é que o indivíduo se dá conta da situação. É quando a culpa e a vulnerabilidade invadem a sua mente e criam um trauma psicológico significativo que nunca é avaliado clinicamente porque na função do Sapador Bombeiro ele não pode sofrer nenhuma fraqueza mental pois isso não é bem aceite no grupo por ser considerado um sinal de fraqueza.

As equipas dos Sapadores Bombeiros devem ser fortes sempre em qualquer momento, essa é a doutrina vigente. Preferem viver com os seus fantasmas em vez de compartilhar a sua dor, que pode ser vista como uma fraqueza pelos seus camaradas.

Usar um ARICA e um EPI de cerca de dez quilos, respirar com uma máscara enquanto faz um esforço controlado está ao alcance de qualquer pessoa saudável, com constituição física normal e praticando atividade física regularmente, mas utilizar uma ARICA mais EPI de incêndios estruturais e algumas ferramentas num peso total que pode chegar aos 30kg para realizar um esforço violento, como um salvamento ou combate direto ao fogo, numa situação que provoca sempre ansiedade e que é muito ruidosa e perigosa, tudo sem qualquer visibilidade numa atmosfera imprópria para a vida, escondendo sob gases tóxicos e inflamáveis um fogo pronto a devorar tudo o que é combustível inclusive os próprios operacionais, certamente não está ao alcance de qualquer um.

As múltiplas ferramentas e equipamentos transportados requerem uma base sólida de conhecimento e a capacidade de usá-los em tempo útil, quase automaticamente ou mesmo por efeito de reflexo. Porém, o treino dos operacionais no uso de todos esses equipamentos, além das técnicas operacionais básicas, consomem muito tempo e exigem cada vez mais horas de treino. O simples facto de carregar equipamentos que só os bombeiros sabem usar, pode ser stressante, é preciso saber faze-lo da forma mais correta.

Não podem cair no erro de pensar que pelo facto de existir abundância desses equipamentos e ferramentas de trabalho, que podemos relaxar e convencerem-se de que eles vão fazer o trabalho pelos bombeiros! Nada mais errado!

O cérebro é muito exclusivo, ainda mais sob stress e apesar de todas essas ferramentas e equipamentos estarem a disposição dos operacionais, estes devem de ter a capacidade de os usar de forma eficaz quando for preciso. O desconhecimento do cálculo do fogo e da marcha geral das operações leva os operacionais a correr riscos não avaliados.

Portanto, no meu entender o treino mental é muito importante no contexto de uma melhoria da gestão emocional nas operações de socorro.

O Operacional tem que estar ciente do perigo e do risco que corre para se proteger dele. Uma situação que provoca ansiedade pode ser controlada se já tiver sido aprendida e aprendido a reconhecer os seus sinais e efeitos. Essa aprendizagem pode ser alcançada por meio de inúmeras experiências operacionais ou por meio de treino específico. Os progressos registados nas últimas décadas no domínio da prevenção dos riscos de incêndio, bem como na renovação das instalações técnicas (eletricidade e gás) das habitações, reduziram significativamente as intervenções de combate aos incêndios estruturais, no entanto quando elas acontecem, são normalmente muito mais intensas.

Como resultado, essa queda no número de intervenções também reduziu o seu nível de experiência e a sua capacidade de ler o risco em tempo real. O treino é, portanto, essencial para construir uma capacidade de análise consciente que permita ao operacional reconhecer os efeitos de uma emoção ou stress e ser capaz de controla-los para manter a sua compostura e a sua lucidez.

É possível criar situações de ansiedade controladas e evolutivas, permitindo ao operacional reconhecer os sintomas de ansiedade, controla-los e registrá-los na sua memória e, assim, ficar mais preparado para enfrentar uma sensação de stress semelhante.

O operacional enquanto utilizador de um ARICA em treino é confrontado com situações simples de provocação de ansiedade que são ligeiramente aumentadas para criar habituação aos sintomas de stress como a claustrofobia, medo de bloqueio físico, dificuldade para recuperar o fôlego e que ainda se deve somar o intenso esforço físico e uma aplicação de técnica respiratória específica (respiração intercostal), são situações que provocam ansiedade e que devem ser compreendidas em treino para serem conhecidas e analisadas fora de uma operação real, sob pena de comprometer a integridade física do operacional e da equipa.

Este treino deve ser nivelado, adaptado e evolutivo para permitir que os recrutas/formandos construam um esquema analítico progressivo e individualizado. As sequências propostas devem incluir exercícios individualizados e adaptados a todo o pessoal que vai ser treinado. Em primeiro lugar, é importante confrontar os recrutas/formandos com cenários descontextualizados para evitar os efeitos de repetição relacionados com uma situação operacional típica. Estas situações devem permitir estimular o campo físico, técnico e principalmente o mental.

Antes de qualquer situação ou exercício, é fundamental criar um estado de confiança mútua. Esta confiança deve ser instalada e partilhada entre o formador e os seus formandos, mas também destacada entre os próprios formandos. Às vezes, os recrutas não são muito habilidosos ou ficam pouco à vontade durante os exercícios por falta de autoconfiança; o oposto também é frequentemente observado. Portanto, é essencial que estes exercícios de iniciação não sejam certificadores, isto é, os exercícios de iniciação devem ser de avaliação formativa, mas não sumativa. Este tipo de treino requer vontade em aprender e evoluir por parte do formando e a capacidade de evitar qualquer julgamento ou preconceito por parte do formador.

É fundamental uma explicação do exercício e dos objetivos pretendidos. O recruta/formando deve saber que será levado a descobrir novas sensações e, sobretudo, que deverá aprender a controla-las para manter sua lucidez. Este briefing ajuda a manter a calma e a controlar a ansiedade inicial, deve ser explicado com palavras simples para aumentar a consciência da sua importância na evolução do treino, da segurança individual e coletiva.

Durante este briefing, o formador pode simplesmente explicar o funcionamento do cérebro de forma simples e as consequências devido à falta de partilha de informações entre as diferentes partes dele numa situação de elevado stress. Esta explicação simplificada permite que os recrutas compreendam o funcionamento inconsciente do seu cérebro e que se preparem para procurar os seus próprios indicadores de stress para melhor se protegerem deles. Esta etapa não deve ser realizada numa sala de aula, mas sim em trabalho de campo.

No final de cada exercício, o formador retoma as palavras e passagens escolhidas no briefing para permitir ao formando relembrar os objetivos pretendidos e avaliados. Este método  permite que o recruta/formando crie uma ligação entre a teoria descontextualizada da mente e os reais sentimentos durante o exercício. O recruta/formando deve tomar consciência dos impactos psíquicos produzidos pela situação e pelo seu comportamento para conseguir encontrar os recursos mentais necessários para manter a calma e a lucidez.

Uma vez compreendido e dominado este esquema analítico, o recruta/formando deve poder

continuar a sua aprendizagem por conta própria e, sobretudo, poderá realizar ações de contexto real de elevado stress e provocadoras de ansiedade, mas sempre em ambiente controlado e sob supervisão especializada.

Se colocarmos um recruta/formando totalmente equipado com EPI de Incêndios estruturais mais o ARICA e colocá-lo numa situação de perigo de vida sem ajuda externa (curso de sobrevivência/ Busca e salvamento), e se ele ficar bloqueado no seu caminho e com medo de morrer num espaço confinado, as suas reações são provavelmente violentas e totalmente voltadas para um único objetivo: sair desse impasse a todo custo. Esta experiência vai ser vivida como uma provação sem interesse para este recruta/formando. Ele não vai aprender lições e vai tentar esquecer esse episódio desagradável sob o risco de sentir os efeitos de uma situação operacional equivalente com muito mais violência e ao ponto de deixá-lo em pânico.

O objetivo deste exercício é ganhar e fortalecer a confiança com o EPI e o ARICA, preparar o corpo para o exercício, entrar em contato com a ferramentas de pesquisa e abertura de espaços, conhecer o seu equipamento em todos os seus aspetos. O Exercício deve ser realizado sob todas as condições de segurança operacional, o formador deve ser especializado, e deve avaliar constantemente os sinais de problemas fisiológicos.

Uma vez que esta habituação e reconhecimento dos sinais e efeitos do stress operacional são descobertos e compreendidos, o recruta/formando pode tirar proveito do aspeto técnico.

Finalmente, a gestão do fracasso será a chave para a eficácia do treino e, portanto, o que dele resta; mais uma vez, é fundamental não esquecer que a ética é a base de tudo o que constitui a organização das equipas de bombeiros.

A humildade é, portanto, uma componente essencial para um profissional de elite. O fracasso é parte integrante desta preparação mental. O homem foi-se adaptando toda a sua vida graças a ele. A falha permite corrigir, controlar e aperfeiçoar as suas habilidades técnicas adquiridas no exercício. Os resultados do fracasso surgem mais ou menos rapidamente, dependendo da forma como o operacional faz a gestão desse fator. O fracasso, para ser útil, deve ser analisado e compreendido para fornecer uma solução que deve ser capaz de ser usada para prevenir futuras falhas.

O apoio ao recruta/formando nesta área de preparação mental é essencial. Não há nada pior do que um formador dizer no final de um treino para seus recrutas/formandos menos capazes: “Você é um inútil!”. Este tipo de afirmações, que por vezes são proferidas por alguns formadores/instrutores nas “escolas de recrutas”, é muito “impactante” para os recrutas. Saber que o seu desempenho foi mau é uma coisa, mas ouvi-lo á frente de todos não é de forma alguma uma análise eficaz do seu fracasso. É como dizer a uma criança que caiu da bicicleta: “Eu bem que te avisei que não irias conseguir, és um inútil!”. Certamente, que essa criança não vai ficar com as melhores referências dessa observação e não vai ser isso que a vai fazer aprender a andar na bicicleta de forma correta.

A verbalização positiva é essencial para aumentar os recursos úteis para a criação de um esquema de avaliação eficaz. O mundo formativo dos Sapadores Bombeiros carece de horizontalidade e muitas vezes confunde o conhecimento com o poder.

O Sapador Bombeiro não gosta de falhas. Durante a sua formação todas as suas competências foram avaliadas de forma certificada com uma obrigação de sucesso. Portanto, ao participar de ações de treino e aperfeiçoamento técnico ao longo de sua carreira, ele deve ter sucesso,

no verdadeiro sentido do termo. O fracasso não é uma opção e não corresponde a nenhum valor reconhecido. A preparação mental baseia-se no fracasso construtivo. O formador tem grande responsabilidade na preparação mental do recruta/formando para ultrapassar o fracasso.

O recruta/formando também deve compreender que uma falha não é única e que se pode repetir na mesma situação devido a um ou mais fatores técnicos, físicos e ou psicológicos.

No entanto, é bom que fique claro, que esta preparação mental não é um escudo universal e absoluto contra todas as situações operacionais difíceis. Quando um acidente ocorre e afeta violentamente um ou mais bombeiros, ao ponto de eles não conseguirem escapar, nada pode preparar os camaradas para o julgamento de uma morte imediata. O desempenho da função do bombeiro gera uma atividade de risco que é medida, mas que não se pode excluir explosões, desabamentos, acidentes térmicos, etc., são muitos os fatores que não conseguimos controlar, não existe risco zero.

Estar atento e vigilante continua a ser a primeira regra de segurança, mas requer lucidez e muita calma, apesar de todo o stress criado pela situação. A preparação mental é necessária para compreender e colocar o bom senso nas nossas ações diárias.

O que se pode concluir desta abordagem mental é, a importância relativa do equipamento, da técnica ou mesmo da tática:

• O melhor fato de proteção do mundo não vai proteger de forma eficaz o operacional que

não controla a sua ansiedade e não respeita as regras de segurança.

• O mais moderno dos veículos de combate a Incêndios não vai levar a equipa mais rápido ao

local da ocorrência com um motorista que não domina o GPS ou que não conhece as ruas da

sua área de atuação própria.

• A melhor técnica terá pouco efeito se o pessoal não a compreender e, principalmente, se

não a souber aplicar e qual o melhor momento para o fazer.

• Mesmo a mais perfeita das táticas pode-se transformar num caos geral se o líder da

intervenção gritar ordens e correr de um lado para o outro num comportamento errático,

devido á sua falta de preparação.

A covi-19 chegou de repente e nem todos estavam preparados!

Conta-se pelo dedos de uma mão a quantidade de unidades orgânicas de bombeiros que estavam minimamente preparadas para enfrentar o desconhecido e que ativaram de imediato os seu planos de contingência.

A preparação mental dos operacionais e a capacidade de liderança da sua cadeia de comando neste momento de crise faz toda a diferença.

Lidar com a covid-19 é muito mais simples do que combater incêndios estruturais, no entanto o risco de morte também é real, por se tratar de um vírus invisível, mortal e com um potencial de contágio muito elevado, todas as ocorrências são fator de gerar muito stress, mas tudo se

resume á capacidade mental do operacionais e á sua disciplina.

Este vírus, levou muitos a enfrentar o desconhecido “carregados” de ansiedade por manifesta falta de informação, de preparação técnica e mental.

Esta nova realidade veio despertar algumas mentes para a importância da formação em riscos biológicos, pois então que sirva de aprendizagem para situações futuras e para o presente, porque isto ainda não acabou, e não se sabe quando vai acabar.

A ética é o compromisso moral que leva ao compromisso mental, aqueles que compreenderam a importância da sua função e tomaram consciência da fragilidade dos resultados de uma intervenção sem preparação mental, compreendem que a força mental, move o corpo e que, essa força mental é o valor maior, na base da realização das operações de socorro, com Covid -19 ou sem Covi-19.

Deixo aqui o desafio para que todas as profissões de risco tenham a coragem de assumir a existência do stress nos seus trabalhos desenvolvendo programas de apoio/controlo de stress desde a formação de base no início da carreira.

Mas acima de tudo que todos possamos sair desta crise mais fortes e mais resilientes.

Sou Sapador Bombeiro, com muito orgulho e enquanto Deus quiser!

Óscar Silva

(Diretor Associação Nacional Bombeiros Profissionais; Técnico Europeu de Segurança Contra Incêndios em Edifícios; Formador de Combate Incêndios Urbanos e Industrias e de Brigadas de Emergência).

Exerce a atividade profissional na cidade do Porto, no Batalhão Sapadores Bombeiros.


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