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Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros confessa que situação no Padre Américo é “dramática”

João Paulo Carvalho, presidente da Secção Regional do Norte da Ordem dos Enfermeiros (SRNOE), afirmou, em declarações ao Novum Canal, que a situação que se vive no Hospital  Padre Américo, uma das duas unidades que integram o Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, é “dramática”.

“O ponto de situação é dramático. O Centro Hospitalar recebe mais doentes do que aqueles para que foi projetado. Estamos a falar de quase 50% mais doentes do que aqueles que há estrutura para aguentar, considerando que o projeto é de 350 mil pessoas e, ao momento, servem-se daquele Centro Hospitalar cerca de 520 mil utentes. Se aquela unidade todos os anos nos preocupa, este ano, era claro que não teria condições para suportar a afluência. A zona do Tâmega e Sousa, do ponto de vista dos cuidados de saúde, está sentada num barril de pólvora. Este ano foi só o rastilho!  Temos denunciado à ARS as dificuldades dos hospitais do Norte desde 2016, ano em que convidámos a Administração Regional de Saúde a fazer um périplo pelas unidades, de forma a fazer um Raio-X à saúde do Norte. Penafiel constou diversas vezes das preocupações da Ordem dos Enfermeiros. A situação em Penafiel, em especifico, é muito preocupante. Mas não é nova, nem é culpa exclusiva da pandemia, infelizmente”, disse.

“O Centro Hospital do Tâmega e Sousa dispõe de 454 camas mais 40 berçários e chegou a ter 235 Covid positivo nos internamentos. O Covid não suspendeu as restantes doenças, só veio acrescentar mais uma”

O responsável pelo SRNOE confirmou que a situação é “aflitiva a todos os níveis”.  

“O Centro Hospital do Tâmega e Sousa dispõe de 454 camas mais 40 berçários e chegou a ter 235 Covid positivo nos internamentos. O Covid não suspendeu as restantes doenças, só veio acrescentar mais uma. Como tal, não podemos deixar de prestar assistência às pessoas tornando os hospitais em unidades Covid. O objetivo do país não pode ser estatístico. Pelos vistos pouco importa que os doentes não morram de Covid. Sabemos que nos primeiros 6 meses deste ano, houve um aumento de mortes, quando comparado ao período homologo dos últimos 10 anos. As pessoas morrem por falta de assistência, seja ela por medo ou por falta de espaço dos hospitais. O coronavirus está à debaixo do nosso nariz, mas o horizonte está pejado doutras patologias que não podemos descurar.  Governar a olhar para os pés afunila perspetivas. Em saúde, a conta paga-se em epitáfios”, avançou.

João Paulo Carvalho esclareceu que apesar das adversidades, a SRNOE e a Ordem dos Enfermeiros tem os profissionais “mais bem formados do mundo”.

“É com muito orgulho que dizemos que temos os enfermeiros mais bem formados do mundo. Mas a verdade, é que não somos só nós que o sabemos, o mundo também. Como tal, houve, ao longo destes últimos anos, fruto do desinvestimento na saúde em Portugal, uma grande emigração dos nossos profissionais, que buscam condições de vida coerentes com o esforço e dedicação que colocam na sua profissão. Apesar disso, os poucos enfermeiros do Hospital de Penafiel, têm feito um esforço estoico para aguentar os serviços e prestar cuidados. É sempre possível prestar cuidados quando temos os melhores do mundo. Agora, se me questiona se os cuidados são prestados com a mesma qualidade que deveriam ser, óbvio que não podem ser. Estudos internacionais indicam que um enfermeiro deve prestar cuidados a seis utentes no máximo. Na urgência de Penafiel, há dias, havia 115 utentes para quatro enfermeiros. Pelo enorme perigo de contágio que o SARS-CoV-2 representa, é preciso ter cuidado, um cuidado acrescido no uso e manipulação dos equipamentos de protecção individual que o profissional precisa de trocar de doente para doente, para evitar a contaminação cruzada. Com estes números, isto não são cuidados, é uma linha de montagem de suporte assistencial de vida”, expressou, sustentando que “um volume de trabalho desta dimensão só poderá culminar no esgotamento dos profissionais ou num não cumprimento das regras de segurança para o profissional, no intuito de conseguir garantir cuidados seguros e de qualidade a mais pessoas. Ao querer fazer mais o risco de contaminação do próprio enfermeiro multiplica-se. Os serviços podem começar a ficar sem enfermeiros por estarem eles também doentes”.

“Montem-se os hospitais de campanha que se quiserem depois de se dar ao SNS os profissionais que ele precisa. Até lá, estamos a enganar-nos”

Questionado se a instalação de um hospital de campanha nas imediações do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, está a funcionar devidamente, João Paulo Carvalho realçou que “segundo relatos de um enfermeiro do hospital de Penafiel, a tenda do INEM tem servido exclusivamente para fazer rastreios. A confirmar-se esta informação, não. Não está a ser utilizado devidamente e não passa de um elemento de propaganda para assustar, ao mesmo tempo que transmite uma falsa sensação de segurança à população”.

“O hospital de campanha pode ser uma arma fundamental no combate ao vírus em unidades com infraestruturas deficitárias mas, como em todos os equipamentos do SNS, de nada servem se não existirem recursos humanos capazes de as operar. Somos uma país pobre que tem um fetiche por carros de alta cilindrada, mas para tirar proveito desses carros precisamos de piloto e de estradas pavimentadas. Neste momento, o caminho é sinuoso e com vários percalços. Montem-se os hospitais de campanha que se quiserem depois de se dar ao SNS os profissionais que ele precisa. Até lá, estamos a enganar-nos”, acrescentou.

Interpelado sobre a importância de se requerer o apoio e colaboração do setores privado e social ” neste processo, o responsável pela SRNOE esclareceu que não existem setores, apenas doentes e unidades com capacidade para prestar auxílio.

“Numa situação como a que vivemos defendo que não há setores. Há doentes e unidades com capacidade para prestar auxílio e evitar o colapso da assistência de saúde. O país está em modo de sobrevivência e não tenho a capacidade para fazer uma diferenciação ou segmentação das unidades, dependendo do proprietário. Primeiro as pessoas, as contas depois. Estamos numa altura em que se exige pragmatismo e soluções, não entropias ideológicas a toldar discernimentos e a atrasar soluções. Na certeza porém que, quem for chamado a ajudar o serviço público, terá de cumprir as mesmas regras e fornecer as mesmas condições de segurança a utentes e profissionais que se exigem aos serviços públicos. Não pode haver dois pesos e duas medidas e a Entidade Reguladora da Saúde terá um papel fundamental na fiscalização do escrupuloso cumprimento das regras”, concretizou, sustentando não ser defensor de soluções fundamentalistas, como, por exemplo, a hipótese de uma cerca sanitária, de que se falou aquando da incidência muito significativa de casos de Covid-19 em três concelhos da região do Vale do Sousa, mas que acabou por ser afastada pelo primeiro-ministro.

“Não sou apologista de limitações às liberdades constitucionais. Ninguém pode ser. Porém, o Utilitarismo, vulgarmente conhecido como a teoria do bem maior, exige uma ação musculada por parte do Estado no sentido de conseguir conter os avanços da pandemia e evitar o colapso do SNS. Tudo isto era desnecessário se a situação tivesse sido gerida com maior cuidado, principalmente no que toca à comunicação, por parte do governo e da DGS desde que este problema começou. Quando falamos em comunicação, não é só o que se diz. Tudo é comunicação. Sobretudo o que se faz. Não podemos negociar medidas de exceção por suporte parlamentar ou considerar a saúde pública um bem vendável mediante a visibilidade e retorno financeiro que os eventos podem trazer ao país”, precisou.

“Se não forem tomadas medidas urgentes, sobretudo no que toca no reforço das equipas e garantia de stocks de equipamentos de proteção individual, mais cedo ou mais tarde o esgotamento físico e psicológico das equipas tornará a situação insustentável”

João Paulo Carvalho manifestou, por outro lado, que “Se não forem tomadas medidas urgentes, sobretudo no que toca no reforço das equipas e garantia de stocks de equipamentos de proteção individual, mais cedo ou mais tarde o esgotamento físico e psicológico das equipas tornará a situação insustentável”.

“Não só temo como o tenho como garantido. Se não forem tomadas medidas urgentes, sobretudo no que toca no reforço das equipas e garantia de stocks de equipamentos de proteção individual, mais cedo ou mais tarde o esgotamento físico e psicológico das equipas tornará a situação insustentável. Os profissionais de saúde são mais do que uma farda e continuam a ser igualmente remunerados. O vencimento e as responsabilidades adquiridas antes desta crise levam-nos a continuar a ter de fazer turnos de acumulação em várias unidades, apesar de agora terem mais horas de trabalho e estarem expostos a um stress constante muito superior ao que acontecia pré-Covid. Não há infraestruturas suficientes mas esse problema vai sendo minimizado com recurso a soluções provisórias. Quanto aos recursos humanos, não há plano B. Ou existe um largo acompanhamento das equipas, um grande respeito pelas horas de descanso dos profissionais e uma redução, para níveis aceitáveis, dos números de doentes alocados a cada profissional ou espera-nos um Inverno negro”, atalhou.