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“O que posso garantir é que, apesar dos esforços de todos os profissionais do terreno, neste momento, as condições em que estamos são quase de terceiro mundo”, Raquel Barradas, médica no CHTS

O número de infetados e de doentes internados por Covid-19 no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa (CHTS) têm atingido valores muito preocupantes, nas últimas semanas, facto que tem levado a que vários intervenientes ligados ao setor da saúde tenham lançado vários apelos no sentido de alertar para o desgaste a que estão submetidos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde.

A Ordem dos Enfermeiros Norte fala mesmo em situação  “insuportável”, tal a sobrecarga de trabalho a que os enfermeiros têm sido sujeitos e à dificuldade em prestar cuidados de saúde nestas condições.

Do lado  dos médicos, a pressão também se faz sentir, conforme precisou Raquel Barradas, médica há quase três anos no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, em Penafiel.

Questionada sobre a situação que se vive no Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, a jovem médica confirmou que, apesar dos esforços de todos os profissionais, esta é complexa e difícil.

“A minha realidade mais próxima é a do serviço de urgência e é disso que tenho algum conhecimento para falar … Mas se pensarmos bem, este serviço, como em qualquer hospital , interfere direta e indiretamente nas realidades dos outros serviços… portanto … esta é a verdadeira importância do que estamos a falar… Resumindo, o que posso garantir é que, apesar dos esforços de todos os profissionais do terreno, neste momento, as condições em que estamos  são quase de terceiro mundo”, disse, salientando que o aumento do número de infeções por Covid-19 que se têm registado nos últimas semanas era algo de “expectável” e “evitável”.  

Raquel Barradas sustentou que a infraestrutura de alargamento da urgência poderá ser muito útil, mas deixou um aviso.

“Contudo, de nada valerá se continuar a haver falta de material básico como “1 termómetro “ e se o racio  doente/ profissional continuar a ser o mesmo, principalmente enfermeiros e auxiliares… “, frisou, sustentando estar convencida que o número de pessoas infetadas por Covid-19 vai continuar a subir.

A jovem médica deixou um alerta para que as pessoas que não têm necessidade de cuidados para não se deslocarem à unidade hospitalar, pois estão a entupir as urgências.

“Vai continuar a subir. Não tenho dúvidas. O problema não é o número de infetados subir. O problema é quando esses infetados são doentes de risco, nos quais a doença tem verdadeiro impacto, e não lhes conseguimos dar resposta porque a população que não tem necessidade de cuidados continua a entupir as urgências”, avançou.

Interpelada sobre o estado de espírito dos médicos, Raquel Barradas reconheceu que  este vai variando e vai desde o “desânimo”, a “tristeza”, a “coragem”, ao “companheirismo”.

“Dos médicos, dos enfermeiros e dos auxiliares … Vários estados de espírito se vão intercalando… desânimo, tristeza, vontade de trabalhar, coragem, ansiedade, exaustão, revolta … companheirismo”, afirmou.

Quando questionada sobre o que sente por estar na linha da frente, Raquel Barradas foi perentória na resposta:

“Já não estamos na fase em que foco o meu trabalho em recomendações para “ evitar a infecção”!  Além disso … na linha da frente para evitar a infeção estão, ou deviam ter estado, os nossos dirigentes… Nós, profissionais de saúde, deveríamos estar na linha da frente apenas para a tratar! Isso sim é o nosso trabalho!”, declarou, confirmando ser fundamental proceder a um reforço de meios e dos  recursos e admitiu não saber se vamos vencer esta batalha.

 “Ainda não percebi contra “ quem “ estamos a lutar de verdade… por isso não sei …”, afiançou.

Além do Padre Américo, Raquel Barradas trabalhou no Pedro Hispano, no internato, no Hospital de Vila Real e no S. João.  

Refira-se que esta sexta-feira, o presidente da Conselho de Administração do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa, Carlos Alberto, num apelo à comunidade que recorre ao CHTS, lançou um alerta no sentido da população evitar a pressão sobre esta unidade que já é significativa.

“Os números do crescimento de infeções das últimas semanas atingem valores muito preocupantes e devem merecer uma atenção redobrada de todos para que se consiga manter alguma vida social e económica sem necessidade de um novo confinamento que ninguém deseja. Os efeitos do confinamento anterior ainda estão bem presentes para percebermos o que está em causa, sendo que um segundo confinamento seria certamente bem mais gravoso que o anterior. Para que alguns comportamentos irresponsáveis não sejam fator de pressão desmesurada sobre os diferentes serviços de saúde, apela-se ao esforço de todos para cumprir as recomendações já sobejamente divulgadas: uso da máscara, lavagem das mãos, ter em atenção a etiqueta respiratória e o distanciamento social”, disse, salientando que CHTS tem estado nestas últimas semanas sobre uma “pressão tremenda, com uma injusta sobrecarga de trabalho dos seus profissionais, devido à elevadíssima concentração de casos positivos nesta região”.

“Aliás, nunca tinha acontecido, desde o início da pandemia, que um só hospital tivesse concentrados 10% de todos os doentes internados por COVID-19 do país. É o que está atualmente a acontecer no CHTS”, precisou.