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Especialista da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro avisa que Rio Sousa está doente e que é fundamental intervir de forma articulada e em grande escala

O especialista em Ciências Florestais e Professor Catedrático e membro do Concelho Geral da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Rui Cortes, declarou, este sábado, no âmbito do o  colóquio “ Sousa, um Rio Vivo”, uma iniciativa promovida pelo Movimento Rio Sousa, que decorreu em Novelas, que o Rio está doente e urge intervir de forma articulada no sentido de proteger e salvaguardar este recurso natural e o seu ecossistema.

Além da existência de fauna exótica, o professor confirmou que existe uma erosão fluvial muito intensa, o alargamento do leito de cheia, zona temporariamente coberta pelas águas quando ocorrem situações como inundações.

“Nos trabalhos que temos vindo a fazer através da universidade exceto a parte inicial do Rio, os primeiros 10 quilómetros, verificamos existirem focos de contaminação ao longo do rio, uma degradação da qualidade da água, excesso de nutrientes  e um aparecimento elevado de plantas exóticas, fauna exótica, isto é, fauna piscícola exótica. Portanto,  isto é um padrão que encontramos ao longo de todo o Rio Sousa. E em paralelo encontramos também situações de erosão fluvial muito intensas, o alargamento do leito de cheia o que mostra que as margens estão instáveis. Trata-se de uma situação  muito complicada porque a intervenção não pode ser uma intervenção pontual, mas tem de  ser uma intervenção em maior escala”, frisou.

Rui Cortes concordou que o Rio Sousa tem sido alvo de inúmeras descargas, defendendo que é fundamental defender a bacia hidrográfica do rio.

“Não é difícil de prever, temos inúmeras etar´s, umas a funcionar menos bem e este conjunto de etar´s e o grande aglomerado populacional, a par da existência de indústrias agroalimentares que não têm os adequados dispositivos de tratamento torna esta situação muito complexa. Este é um problema que não pode ser resolvido por um único município, tem de ser resolvido de maneira integrada por um conjunto de municípios e tem de ser desenvolvido a uma escola grande porque os problemas de focos de poluição são inúmeros ao longo do trecho do curso de água”, atalhou.

Falando da articulação entre municípios, o professor manifestou não existir uma cooperação considerável.

“Não me parece que exista uma intervenção numa escala considerável e, portanto, algumas intervenções quando existem são muito localizadas  e esse trabalho em conjunto de várias câmaras é absolutamente necessário”, acrescentou.

Questionado  sobre o processo de classificação da Paisagem Protegida do Sousa Superior, Rui Cortes relevou este projeto, reconhecendo que é uma mais-valia para a região e que tem condições  para ser replicado noutros municípios do território.

“Conheço o projeto. O caso de Lousada que procura consciencializar a população, colocando a ênfase da riqueza ambiental e na salvaguarda da linha de água. A biodiversidade do Rio Sousa é algo que passa ao lado de muitos cidadãos. As pessoas não têm consciência que existem uma diversidades  de espécies muitíssimo interessantes e o caso do município de Lousada tem exatamente esse efeito de alertar para um património natura existente que deveria ser replicado”, atalhou.

A vice-presidente e vereadora do ambiente e recursos naturais, Susana Oliveira, destacou que a autarquia irá avançar  com a colocação de sensores de alerta de descargas poluentes no rio, de forma a proceder à sua permanente monitorização e deteção dos focos poluidores.

“Estes sensores são fundamentais porque nos permitem através dessa monitorização contínua perceber as descargas que são feitas naquele troço, quando é que são feitas e isso vai permitir esclarecer quaisquer dúvidas”

A autarca explicou que estes sensores vão permitir além de monitorizar a qualidade da água, identificar as descargas, o local e o que estas contêm.

“Estes sensores são fundamentais porque nos permitem através dessa monitorização contínua perceber as descargas que são feitas naquele troço, quando é que são feitas e isso vai permitir esclarecer quaisquer dúvidas. O sensor colocado nesse compartimento vai permitir monitorizar, retirar dados permanentemente de toda e qualquer descarga que seja feita e perceber o que é que essas descargas contêm, seja do Matadouro ou da Zona Industrial, exemplo que foram aqui focados, ou de doutro foco poluidor, não sabemos, mas queremos saber para atuarmos. Estes sensores vão-nos permitir ter essa informação e atuar juntos dos responsáveis para que esse problema possa ser resolvido. Existem outros pontos poluidores e, portanto, a partir do momento em que o município adquiriu esse equipamento, que representou um investimento considerável, podemos agora, contratando sempre uma prestação de serviços, sempre que for necessário, para colocar num ponto diferente, teremos essa possibilidade de averiguar e detetar esse foco poluidor. No troço que diz respeito a Penafiel faremos o que estiver ao nosso alcance para obter uma informação o mais fidedigna possível”, sustentou.

A autarca concordou que é fundamental existir uma maior intermunicipalidade na defesa do Rio Sousa, na preservação deste recurso natural e no que ele representa em termos de ecossistema e biodiversidade para a região.

“O Memorando de Entendimento Intermunicipal sobre o Rio Sousa que foi assinado no ano passado, surgiu por isso mesmo e há uma necessidade efetiva de se promover a sua preservação, fazendo desta uma prioridade ao nível de toda a região, não só Penafiel, Paredes ou Lousada. Não adianta estarmos a fazer um excelente trabalho no nosso troço, se Lousada, a montante, não o fizer. Da mesma forma não adianta Paredes fazer se depois Penafiel não o fizer. É importante  estarmos todos em sintonia e entendemos que neste contexto, a Associação de Municípios do Vale do Sousa seria a entidade adequada para liderar estes trabalhos porque o município de Paredes faz parte da Associação de Municípios do Vale do Sousa, o Rio Sousa passa em Paredes, mas Paredes integra a Área Metropolitana do Porto e não integra a Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa. Portanto, entendemos que, neste caso em particular do Rio Sousa, seria a Associação de Municípios do Vale do Sousa a entidade mais adequada para liderar estes trabalhos. Temos estado em permanente contacto e em breve haverá notícias”, assumiu.

“Tem que efetivamente haver uma fiscalização e tem que haver uma punição para determinados comportamentos, mas para isso é fundamental que consigamos apanhar num determinado momento o infrator e isso não tem sido possível”

Questionado se defende uma maior fiscalização para quem prevarica, a vereadora realçou que mais do que a fiscalização é importante apostar na sensibilização e educação ambiental, consciencializando os munícipes para a importância deste recurso.

“Sabemos que as pessoas, por vezes, só aprendem quando lhes dói na carteira, quando são multados. Era bom que isso não fosse necessário. Era bom que estas iniciativas e toda a sensibilização que se faz para preservarmos os nossos rios, o consumir a água de forma responsável, o respeitar a natureza, a durabilidade dos recursos naturais, fossem suficientes para cada um de nós mudar os nossos comportamentos. Infelizmente  isso não basta. Se há quem se preocupe, há muito mais quem não se preocupe, quem olhe apenas para o seu umbigo. Tem que efetivamente haver uma fiscalização e tem que haver uma punição para determinados comportamentos, mas para isso é fundamental que consigamos apanhar num determinado momento o infrator e isso não tem sido possível. Acreditamos que com esta monitorização mais contínua e com envolvimento de uma comunidade mais atenta possamos dar um contributo decisivo para salvaguardamos o Rio Sousa e evitar que estas situações sucedam. Por outro lado, é preciso haver coragem. Em Portugal não existe o hábito e a coragem de acusar o vizinho. Temos que perder esse medo. Se virmos alguém a fazer mal teremos de ter a coragem de o denunciar para que essa pessoa seja chamada a atenção e possa não repetir esse tipo de comportamentos. Portanto, há aqui todo um trabalho de educação cívica, de educação ambiental que tem de ser realizado e os resultados vão demorar a aparecer, mas há sempre um início e é isso que estamos a fazer”, expressou.

O vice-presidente e vereador responsável pela pasta do ambiente da Câmara de Paredes, Francisco Leal, realçou o trabalho que quer o município de Paredes tem realizado na preservação dos seus rios,  reiterando a necessidade das associações ambientais, mas também os municípios trabalharem no mesmo sentido, de forma articulada, preservando e valorizando os seus recursos naturais.

“Não há outra forma de defender os rios que não seja através da intermunicipalidade”

Francisco Leal concordou, também, que a articulação entre os atores e agentes na área do ambiente é determinante para a defesa dos rios.

“Não há outra forma de defender os rios que não seja através da intermunicipalidade. Aliás o caso de Lordelo é um exemplo disso. É um caso em que Paredes está de mãos atadas no sentido de que o foco de poluição não é proveniente do seu concelho, é proveniente de outro município, mas cujas consequências se fazem sentir de forma acentuada no nosso concelho. Estou convicto que essa intermunicipalidade entre municípios tem existido e a prova de que os  projetos ambientais e o seu sucesso têm que resultar da agregação de municípios é o projeto do Parque das Serras do Porto que está a desenvolver um trabalho na zona sul do concelho seja através da Senhora do Salto, dos passadiços e dos novos projetos que estão previstos. É esta dimensão que queremos dar ao projeto Parque Serras do Porto.  O Rio Sousa também tem o mesmo problema. Se tivermos problemas em Lousada e em Penafiel, Paredes vai sofrer as consequências. Há todo o interesse em que os municípios se juntem e possamos recuperar os rios para as nossas comunidades”, atalhou.

Questionado sobre a Etar de Arreigada e a entrada em funcionamento deste equipamento, o autarca concordou que os problemas que estão identificados não vão desaparecer de um momento para o outro.

“A entrada em funcionamento da Etar de Arreigada, no concelho de Paços de Ferreira não vai resolver de imediato o problema. Não estamos a falar de um efeito por magia. Aliás, a Agência Portuguesa do Ambiente tem consciência disso,  o município de Paredes tem trabalhado em articulação com  esta agência foi sempre a de recuperar o Rio Ferreira. Existe o compromisso da APA em nos ajudar a recuperar o Rio Ferreira desde o parque do Rio Ferreira até ao limite da freguesia, através da limpeza das margens, do leito, recuperação da fauna e flora. Naturalmente que este será um trabalho longo porque queiramos ou não, o rio está morto, não tem vida, mas queremos recuperá-lo. Queremos também recuperar aquele o espaço junto ao Parque do Rio Ferreira, em Lordelo, devolvendo-o à comunidade”, confessou

Alberto Guimarães, do Movimento Rio Sousa, relevou a qualidade dos intervenientes, dos palestrantes que ajudaram a clarificar alguns dos temas e dos assuntos que afetam o Rio Sousa e todos quantos procuram salvaguardar este recurso.

“A iniciativa valeu pela qualidade das intervenções, dos professores Pedro Soares e Rui Cortes, pela presença de várias entidades da região, da Câmara de Paredes, Penafiel, presidentes de várias juntas de freguesia. Todos ajudaram a pensar esta questão do Rio Sousa que se quer cada vez menos poluído e mais salvaguardado na sua biodiversidade”, afirmou, admitindo que existe uma preocupação generalizada na defesa do rio, que depois esbarra em alguns “pequenos e grandes interesses e em alguns desmazelos”.

Alberto Guimarães reconheceu, também, que a intermunicipalidade é fundamental nesta questão e determinante para solucionar muitos dos problemas que este ecossistema enfrenta.

“O Rio e os seus afluentes ao longo dos seus 65 quilómetros atravessam diversos concelhos e só através dessa intermunicipalidade que, aliás, já foi decidido e reconhecida no protocolo que foi assinado, em setembro, do ano passado, entre quatro municípios, e ao qual  se juntou, entretanto, um outro município, o de Paços de Ferreira. Essa intermunicipalidade é central e é a chave para salvaguardar este recurso natural”, afiançou.

A iniciativa contou, também, com a presença de Pedro Soares, geógrafo docente no Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT-UL) que abordou o tema “Importância Eco Sistémica dos Rios do Vale do Sousa”.