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Jorge de Sousa assumiu que problemas físicos precipitaram decisão de “terminar” carreira

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Fotografia: Jorge de Sousa

Jorge de Sousa, árbitro eleito o melhor a nível nacional por seis vezes, com várias internacionalizações, considerado um dos melhores árbitros portugueses dos últimos anos,  colocou recentemente um ponto final na sua longa carreira desportiva.

O seu último jogo foi o SC Braga-FC Porto, a contar para a 34.ª jornada da I Liga portuguesa de futebol.

Em declarações ao Novum Canal, Jorge de Sousa começou por explicar as razões que o levaram a deixar a arbitragem depois de 27 anos, 19 dos quais em provas profissionais, revisitou alguns dos momentos que marcaram a sua carreira, quer a nível nacional quer a nível internacional.

Aproveitamos, também, para conhecer melhor o árbitro, natural de Lordelo, concelho de Paredes, como surgiu a sua ligação à arbitragem assim como a evolução que esta atingiu nos últimos anos, a relação com a critica, os momentos mais emblemáticos da sua longa carreira e o futuro da arbitragem.

Falando das razões que o levaram a terminar a sua carreira, Jorge de Sousa assumiu  que foram os problemas físicos e as várias operações que realizou ao tendão de Aquiles que acabaram por precipitar esta decisão, embora, tenha confessado que foi com alguma tristeza que o fez, pois sentia que poderia acrescentar ainda algo ao futebol.

“Esta decisão vinha a ser ponderada desde a minha última cirurgia, que foi em 2018. Era já a 3.ª ao tendão de Aquiles e a verdade é que não há corpo que aguente, sobretudo em alta competição. Ainda esperei nesta última época os sinais que o corpo daria, mas a resposta não foi boa. As dores estavam sempre presentes a cada treino e a cada jogo. A decisão de terminar acabou por ser a única possível”, disse, salientando que esta foi uma decisão muito ponderada e no momento certo.

A este propósito, o árbitro internacional português admitiu que tinha condições mentais para continuar, mas do ponto de vista físico, essas condições já não estavam reunidas.

“Do ponto de vista mental, sim, do ponto de vista físico, não. Diria que terminei a carreira na plenitude das minhas faculdades, exceção feita à questão física. Talvez por isso sobre alguma tristeza por não conseguir continuar, pois sentia que poderia acrescentar ainda algo ao futebol”, referiu, salientando que fez cerca de 1.100 jogos ao longo da sua carreira.

O primeiro jogo arbitrado por Jorge de Sousa foi o S. Martinho vs Vilar do Pinheiro em juvenis no dia 24 de Abril de 1994.

Questionado como surgiu a paixão pela arbitragem, o árbitro internacional português reconheceu que a sua ligação ao mundo da arbitragem aconteceu por acaso.

“Simplesmente não havia paixão. Tudo aconteceu por acaso. Fui desafiado por um amigo a tirar o curso e no início ainda hesitei, mas lá fui. A paixão veio depois, com os jogos”, frisou, sustentando que a final da Liga dos campeões de 2012 entre o Bayern e o Chelsea, a final do Euro 2012 entre Espanha e Itália, assim como qualquer jogo da Liga dos Campeões, estão entre os jogos que mais o marcaram.

“As pessoas não imaginam o vazio e a frustração que assola um árbitro no final de um jogo que não corre bem”

Fotografia: Jorge de Sousa

“É um privilégio poder estar por dentro de uma competição como a Champions”, avançou, salientando que a maior frustração de um árbitro acontece quando o jogo não corresponde às suas expectativas. Quando isso sucede, explicou que o vazio e a sensação de frustração acabam por serem extremamente difíceis de gerir.

“As pessoas não imaginam o vazio e a frustração que assola um árbitro no final de um jogo que não corre bem”, expressou.

Interpelado se alguma vez foi pressionado enquanto árbitro, Jorge de Sousa foi perentório:  “Depende do que se entende por pressão. Se pressão significa barulho, ruído, isso não interfere absolutamente nada no nosso trabalho nem na nossa preparação”, frisou, realçando que sempre foi um árbitro que reagiu com humildade às criticas quando estas são pertinentes e com frieza quando estas são descabidas ou desproporcionadas.

“Com a humildade e a frieza que a crítica merecia. Críticas construtivas, totalmente aceites e alvo de reflexão. Críticas gratuitas, meramente fundamentadas em clubite, iam diretas para o lixo”, acrescentou, lembrando que, muitas vezes,  foi injustamente criticado pela crítica e pelos críticos.

“Se as pessoas pensam que as nossas decisões são tomadas sempre com certezas absolutas, estão enganadas. Por vezes não dá para ter certezas de nada, é tudo muito rápido, temos que decidir depressa”

O árbitro português assumiu, também, que em vários momentos da sua carreira teve de tomar decisões difíceis, no instante, porque é tudo muito rápido.

“Se as pessoas pensam que as nossas decisões são tomadas sempre com certezas absolutas, estão enganadas. Por vezes não dá para ter certezas de nada, é tudo muito rápido, temos que decidir depressa, e aí entre o nosso instinto, a nossa perceção, a nossa experiência. A dúvida vem depois da decisão estar tomada”, afiançou, confirmando que o mais difícil num encontro é gerir as emoções dos vários intervenientes e atores.  

“As emoções dos diversos intervenientes, pois cada um tem a sua personalidade, a sua maneira de ser. Depois, gerirmos também as nossas próprias emoções, pois há momentos em que não é fácil ao árbitro estar completamente frio e indiferente às coisas, nomeadamente as reações alheias dos diversos atores do jogo, bem como a decisões que por vezes tem de tomar sem ter a certeza”, atalhou.

Questionado sobre a evolução da arbitragem nos últimos anos, o árbitro internacional português admitiu que esta evoluiu de forma significativa do ponto de vista da organização.

“Do ponto de vista da sua organização, evoluiu muito. A nível do profissionalismo, da postura e da atitude postas em prol desta causa, as diferenças são abismais, se compararmos com a arbitragem de à 15/20 anos. Mas o futebol também mudou. No fundo, a arbitragem apenas acompanhou essa evolução” confessou, defendendo a introdução do Árbitro Assistente de Vídeo nos jogos e as novas tecnologias como instrumentos que vieram contribuir para reforçar a tão desejada verdade desportiva.

“O vídeo-árbitro veio sobretudo para melhorar o futebol e nesse aspeto creio que trouxe seguramente mais verdade desportiva ao jogo. Essa é a razão principal da criação desta nova ferramenta”

A este propósito o ex-árbitro de futebol, de Lordelo, manifestou que tudo que possa contribuir para a verdade desportiva é uma mais-valia para o futebol.

Fotografia: Jorge de Sousa

“O vídeo-árbitro veio sobretudo para melhorar o futebol e nesse aspeto creio que trouxe seguramente mais verdade desportiva ao jogo. Essa é a razão principal da criação desta nova ferramenta. Tudo o que possa vir para ajudar os árbitros na sua tomada de decisão e com isso trazer mais verdade desportiva, claro que estou a favor”, precisou.

“Creio que com o devido acompanhamento e formação necessárias, esta geração de árbitros têm todas as condições de assegurarem o futuro da nossa arbitragem para os próximos anos”

Interpelado sobre o futuro da arbitragem em Portugal, Jorge de Sousa defendeu que o futebol, hoje, é uma área muito abrangente e a função de árbitro implica obrigatoriamente ser portador de uma série de competências e valências que vão muito para além da mera condição física.

“Com esperança, mas também com os pés bem assentes no chão, pois esta missão é extremamente exigente e desgastante, quer a nível físico, mas também mental. O futebol hoje é uma área muito abrangente e a função de árbitro implica obrigatoriamente ser portador de uma série de competências e valências que vão muito para além da mera condição física ou do aspeto físico de um árbitro. Creio que com o devido acompanhamento e formação necessárias, esta geração de árbitros têm todas as condições de assegurarem o futuro da nossa arbitragem para os próximos anos. O fundamental é que os árbitros se foquem naquilo que é importante e não percam muito tempo com temas supérfluos”, referiu, confirmando que a aposta na formação é um valor a promover também entre os árbitros, sendo um veículo determinante e decisivo para a afirmação da arbitragem no país.

“Acrescento: é decisivo. Ninguém nasce ensinado e hoje em dia, na arbitragem, os árbitros chegam cada vez mais novos ao topo. Por isso é necessário que sejam acompanhados e monitorizados de modo a que tenham sempre um suporte por parte da estrutura do trabalho que realizam”, esclareceu.

Falando da importância e o trabalho dos núcleos de árbitros, o internacional português confirmou que, apesar das limitações que possam ter, têm a vantagem  de estarem mais próximos dos árbitros, conhecerem as suas necessidades e darem-lhes o acompanhamento que é necessário.

“Os núcleos com as limitações próprias das pequenas instituições tentam dar aos árbitros aquela formação mais próxima e o acompanhamento que os árbitros precisam, sobretudo dos escalões mais baixos”, declarou, reconhecendo que o permanente clima de tensão e de polémica que assola a nossa arbitragem não ajuda a recrutar árbitros.

Fotografia: Jorge de Sousa

Sobre a sua carreira e a forma como a mesma é vista e encarada pelos colegas, mas também, pelos atletas e demais atores e agentes ligados ao desporto, o ex-árbitro disse que mesmo depois de conhecida a sua decisão, foram muitas as manifestações de carinho e apreço pelo trabalho realizado e mesmo os pedidos para que reconsiderasse.

“Não tenho dúvidas que da parte dos jogadores, de treinadores e até de dirigentes, fui visto sempre como um árbitro profissional, exigente, competente e credível. Estar 27 épocas na arbitragem e quase duas décadas na 1ª divisão poderia criar desgaste, saturação dos diversos agentes do futebol em relação a mim. As manifestações de carinho e reconhecimento das pessoas, onde muitas me pediram para reconsiderar a minha decisão de abandonar, é o melhor exemplo que posso dar para a forma como os diversos atores olharam para mim, ou seja, como alguém que acrescentou valor ao futebol e à arbitragem”, frisou, salientando que a sua ligação à arbitragem irá depender sempre da existência de um projeto em que sinta possa acrescentar valor.

“Depende sempre do projeto que surja. Se me sentir motivado e considerar que posso acrescentar valor e ser útil a um projeto que apareça, será sempre algo a considerar”, afirmou.

Desafiado a deixar uma mensagem aos jovens árbitros, o árbitro português apontou  a resiliência, a determinação e ambição como valores basilares para se singrar e ter sucesso nesta área.

“Que trabalhem e acreditem em si mesmos. Sejam humildes, trabalhem, sejam determinados, perseverantes, resilientes e ambiciosos. Se tiverem estas características, terão já muito caminho percorrido para chegarem a algum lado”, referiu, sublinhando que a arbitragem portuguesa terá que continuar a trabalhar muito para conquistar por mérito próprio o seu espaço no panorama internacional.

“Não é um mundo fácil, mas com trabalho, creio que ficaremos mais próximos de sermos bem sucedidos”, lembrou.

Interrogado sobre o momento que mais o marcou na história recente do desporto nacional, Jorge de Sousa escolheu a conquista de Miguel Oliveira no Grande Prémio de Estíria, o primeiro triunfo da  carreira do piloto nacional num MotoGP.

“Considerando apenas 2020, aquela última corrida e aquela última curva do Miguel Oliveira no último grande prémio de moto GP, foi um momento vivido quase como a conquista do euro 2016. Senti uma grande alegria e orgulho em ser português”, concretizou.


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