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“A precariedade na cultura está a atingir uma situação limite, sendo que quem está no público está sempre mais protegido do que quem está no privado”, Eduardo Paz Barroso.

O Professor Doutor Eduardo Paz Barroso, docente universitário, primeiro diretor do Teatro Nacional de São João (1992-1995), assumiu no programa DataVenia, de Paulo Ferrinho, transmitido pelo Novum Canal, que alguns agentes e atores de uma parte especifica da cultura  estão a passar por sérias dificuldades.

“Na verdade a cultura como muitas áreas de atividade é um setor que tem diferentes tipos de especialidade e áreas de intervenção. Na cultura temos os criadores, os autores, os dramaturgos, os encenadores, os realizadores de cinema, os escritores, os coreógrafos, os diretores artísticos dos equipamentos culturais, mas depois temos um setor dentro deste setor invisível, as que é absolutamente essencial para as coisas acontecerem que são os técnicos, os maquinistas de cena, enfim consoante as especialidades e a aeras, estejamos a falar de teatro, de auditórios, de museus , bibliotecas. Toda uma série de técnicos, sobretudo na área dos espetáculos, vivem num regime de imensa precariedade e essa precariedade na cultura está a atingir uma situação limite., sendo que quem está no público está sempre mais protegido do que quem está no privado”, disse, salientando que não é injetando dinheiro na cultura, como o tem feito noutros setores de atividade, que se irá resolver os problemas que afetam a cultura.

Eduardo Paz Barroso concretizou que é necessário estabelecer certo tipo de prioridades e hierarquias.

“O setor da cultura é um setor muito vasto e muito  amplo até do ponto de vista das especificares estéticas e criativas. Por exemplo, os artistas plásticos operam num mercado através das galerias que os coloca num patamar independentemente das dificuldades específicas que possam enfrentar diferente daquele de um jovem ligado ao teatro ou de índole mais vocal e que não têm os atores e atrizes que estão conectados ao grandes centro urbanos e que têm acessos aos mercados da indústria audiovisual de entretenimento, da produção de telenovelas e etc. O que me preocupa como cidadão e alguém que trabalha em diferentes planos da área da cultura é que era necessário estabelecer um certo tipo de prioridades e hierarquias. Vamos lançar dinheiro em cima  do problema para ver se lançando dinheiro sobre o problema  se tapa o sol com a Paneira.  Queria lembrar um facto que é o facto da própria ministra da cultura ter sido apanhada, embora obviamente ela não o possa reconhecer por razões óbvias, um bocadinho de surpresa, quando o primeiro-ministro António Costa anuncia em pacote financeiro, salvo erro em Coimbra, para a cultura. A ministra estava no Palácio da Ajuda, não aparece ao lado do primeiro-ministro e isto criou alguma surpresa no setor”, acrescentou.

“Talvez tudo se possa resumir a uma frase: vivemos numa espécie de economia zombie, felizmente não vivemos numa cultura zombie, mas a cultura é profundamente dependente da economia, tem uma economia própria e talvez pela primeira vez até inexplicavelmente os poderes públicos políticos tomaram uma consciência aguda do setor da cultura em Portugal, da sua heterogeneidade , da sua variedade e isso abre um conjunto de horizontes, de reflexões e também coloca uma série de exigências para  as quais as repostas por muito bem intencionadas que seja, as leis e as medidas legislativas como esta que recentemente se tomou não se resolvem necessariamente injetando dinheiro nas coisas, não apenas na cultura.  De uma forma geral a ideia que tenho é que este Governo tem procurado resolver os problemas, sem entrarmos aqui numa análise política e num comentário mais de detalhe, injetando dinheiro nas coisas. Na cultura ainda não injetou muito”, expressou.

Eduardo Paz Barroso reconheceu, também, que no público existem outros orçamentos e quem está no privado, na área cultura, está a passar por imensas dificuldades.

“A cultura tem uma dimensão  pública e uma dimensão privada e as coisas no público são sempre mais fáceis que no privado. Quando falo do público falo com imenso respeito e admiração, não só por ter desempenhado funções governamentais  nomeadamente em diferentes momentos e com diferentes níveis de responsabilidades. Mas a verdade é que no público existem outras orçamentos e o que veio ao de cima e tem uma evidência irrefutável é que quem está no privado na área cultura está a passar por imensas dificuldades”, sustentou, lamentando que à exceção de alguns ministros, como  Pedro Santana Lopes e Manuel Maria Carrilho, nos últimos anos, a cultura não tem o mesmo peso quando comparada  com outros ministérios.

“Nos últimos seis anos fui responsável por um equipamento cultural que era o Coliseu do Porto gerido  por uma associação de direito privado que tinha como parceiros de referência a Área Metropolitana do Porto, o município do Porto e o Ministério da Cultura e no âmbito do trabalho que desenvolvi tive oportunidade de lidar com vários titulais da cultura e uma das coisas que confirmei é que vivemos num país que tem coisas absolutamente  extraordinárias. Ao longo de seis anos, se a memória não me falha, lidei com três ou quatro responsáveis governamentais, entre secretários de Estado e ministros. Começou com Jorge Barreto Xavier e acabou com a ministra Graça Fonseca. Uma das coisas que dá logo que pensar é: num setor que tem menos de um por cento do Orçamento de Estado que tem o serviço público de televisão agregado através de uma secretária de Estado própria à área da cultura, termos um ministério, mas isso é uma questão meramente simbólica, é uma flor na lapela. O que interessa é o peso politico que os ministros têm. Como vivemos num país que em muitos aspetos é um bocadinho paroquial, o que acontece é que estas questões são medidas por questões de proximidade psicoafetiva e político-partidária entre os ministros e o primeiro-ministro.  Basta olhar para os vários episódios que envolveram a sucessão do ministro Mário Centeno e a tomada de posse e indigitação do atual ministro João Leão para percebermos que uma das questões evidentes é que a questão política dos governantes é decisiva”, atalhou. 

Eduardo Paz Barroso, professor de Estética e Ciências da Comunicação na Universidade Fernando Pessoa, manifestou, ainda, que a cultura tem de ser encarada como um investimento, e em muitos casos, a fundo perdido.

“Mesmo nos equipamentos públicos de referência, para os teatros nacionais, por exemplo, para o teatro Nacional de S. Carlos, o que é que  vemos? Um teatro lindíssimo, com um património fabuloso, mas que está decrépito e precisa de um investimento sério inclusivamente por razões de segurança ao nível de alguns milhões de euros e essa é uma questão que tem sido sucessivamente adiada. O Coliseu do Porto que é uma jóia da coroa do ponto de vista arquitetónico e patrimonial, mas o edifício está completamente exaurido, com diversas patologias, esgotado e a dada altura qual foi a decisão dos poderes públicos que são maioritários naquele equipamento: decidiram entre eles, o Ministério da Cultura, privatizar. Do ponto de vista ideológico, do ponto de vista doutrinário não tenho nada contra haver uma privatização de alguns aspetos da cultura. O que se trata aqui é de compatibilizar mercado, indústria e arte, aquilo que deve ser preservado e criar aqui um conjunto de equilíbrios em que o Estado deve ter como principal função regulamentar e criar mecanismos de natureza financeira para que o mercado funcione livremente, possa expandir-se e ser criativo. Por outro lado, numa perspetiva mais patrimonial, mais vanguardista e experimental possam ser criadas condições para os artistas e os criadores apresentarem o seu trabalho e terem condições dignas para viver”, concretizou, sublinhando que em Portugal temos um dos níveis mais elementares e mais baixos de remunerações comparativamente com a União Europeia, assegurando que é preciso ter uma capacidade de reconhecimento e uma procura que envolva mercados públicos e privados para que a cultura tenha a dignidade necessária.

Eduardo Paz Barroso tem comissariado diversas exposições e ciclos de colóquios e participado em inúmeras conferências em várias instituições, nomeadamente o Museu de Serralves e a Fundação Calouste Gulbenkian, onde também foi colaborar do Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura (1996-2002). É também comentador televisivo na RTPN.