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Alunos divididos quanto a importância e o peso dos exames nacionais na avaliação

Estão agendadas para esta quinta-feira, várias ações de protesto, reivindicando o fim dos exames nacionais, a partir da plataforma #ExamesNAO, que tem como meta sensibilizar a opinião pública e as entidades políticas em relação aos problemas que os exames nacionais colocam aos estudantes.

Com o objetivo de aferir do peso e da importância dos exames nacionais, o Novum Canal ouviu alguns alunos e uma professora da Escola Básica e Secundária Dr. Machado de Matos, Felgueiras, do Agrupamento de Escolas de Felgueiras, estabelecimento de ensino que está em 1.º lugar nacional no ranking em 2019 de percursos de sucesso educativo do ensino secundário, sobre um tema que está longe de ser consensual.

Francisco Sousa, aluno na Secundária de Penafiel, da área de humanidades, questionado  sobre se concorda com os exames nacionais como modelo e método para avaliar os alunos, foi perentório ao afirmar que avaliação do aluno deve ser feita ao longo do ano letivo.

“A avaliação do aluno deveria ser feita ao longo de todo o ano, e não apenas num exame. Apesar de este não valer 100% da nota, continua a ter um peso significativo, que por muitas vezes acaba por prejudicar certos alunos”, disse, salientando que os alunos do 11.º  e 12.º ano de escolaridade que tiveram aulas presenciais na terceiro período, não  estão preparados para fazer os exames.

“Deviam avaliar os alunos com base no seu desempenho nos períodos anteriores, pois neste terceiro período foi utilizado as aulas online, e muitos alunos acabam por não consolidar a matéria tão bem como se estivessem a ter aulas presenciais”, avançou.

O aluno reiterou que avaliação sendo contínua, os discentes têm mais hipóteses da sua avaliação no final do ano ser mais justa.

“Se a nota final de  um aluno dependesse apenas de um teste, se este tirar má nota, já não poderia evoluir. Na avaliação contínua é dada ao aluno  oportunidades para evoluir”, afirmou.

“É de certa forma um comprovativo de aprendizagem, que garante aquilo que o aluno aprendeu ou não aprendeu ao longo do tempo”

Já se os exames nacionais discriminam os alunos porque favorecem aqueles que têm notas altas e melhores condições de estudo e penaliza os alunos com notas mais baixas, Francisco Sousa sublinhou que os exames são feitos a nível nacional, isto é, todos os alunos (bons, maus), seja no público ou privado recebem o mesmo exame.

“É de certa forma um comprovativo de aprendizagem, que garante aquilo que o aluno aprendeu ou não aprendeu ao longo do tempo”, acrescentou, sustentando  que se por um lado os exames “podem contribuir para um mau currículo e em muitos casos pode até arruinar alguns futuros”, por outro lado, “são uma forma de avaliar o nosso conhecimento tendo em conta que não estamos a ser favorecidos visto que os exames são a nível nacional”.

Também Daniela Bernardes, da Escola Secundária Penafiel, aluna do 11.º ano da área de economia, reconheceu ser fundamental que os alunos sejam avaliados pelos professores, no entanto, discordou da realização dos exames nacionais como método de avaliação.

“Não concordo com os exames nacionais porque basicamente são duas horas que podem decidir um futuro”, expressou, assumindo que há escolas que não conseguiram lecionar a matéria, o que poderá , atestou, comprometer a preparação dos alunos para os exames.

“Acho que temos que ir trabalhando ao longo dos períodos para o exame, no entanto, esta pandemia (falando por mim) tem-me deixado mais ansiosa e preocupada. Por sorte, na minha turma já tínhamos acabado de dar a matéria toda para os exames. Acho que agora era só treinar, enquanto que noutras escolas. Certamente há professores que não conseguiram acabar de lecionar a matéria e nesses casos acho mais complicado”, adiantou, defendendo a avaliação contínua como método e instrumento para ajudar os alunos que têm mais dificuldades de forma a que consigam superar essas dificuldades.

Interrogada se os exames nacionais discriminam os alunos, Daniela Bernardes esclareceu que ter bons rendimentos e boas condições de estudo não garante, nem é sinónimo, à partida, que os alunos possam ter bons resultados.

“Ter bons rendimentos e boas condições de estudo não acho que esteja intimamente ligado a ter bons resultados e vice versa. Nem sempre os alunos com notas altas são beneficiados nos exames porque depende da reação de cada um a estar sob pressão”, concretizou, sustentando que apesar de não concordar com os exames estes não devem acabar para haver comparação entre os alunos do ensino público e os alunos do ensino privado.

“A preparação para os exames acontece de forma muito mais importante em casa, e aqueles que não se sentem preparados é também, em parte, porque não tem autonomia para organizar um estudo metódico em casa”

Já Carolina Granja, da área de  Línguas e Humanidades, manifestou ser a favor dos exames nacionais como método de avaliação.

Quanto à preparação para os exames nacionais, admitiu que a preparação para os exames depende de muitos fatores.

“ As aulas virtuais não agradaram a muitos alunos e professores, mas a verdade é que foi a melhor solução que se encontrou para dar resposta a um problema que surgiu de forma repentina. Felizmente, reuniram-se condições que permitiram que os alunos voltassem para ter aulas presenciais durante algum tempo. A meu ver, essas aulas ajudaram a rematar o conteúdo dado nas aulas virtuais e ainda a rever a matéria selecionada para os exames. A esse nível, fizeram por nós, alunos, tudo o que era possível. A preparação para os exames acontece de forma muito mais importante em casa, e aqueles que não se sentem preparados é também, em parte, porque não tem autonomia para organizar um estudo metódico em casa”, precisou, mostrando-se contra outro método de avaliação, que não o atual.

“Acho que o método atual, apesar de defeituoso em certos aspetos, é um garante de justiça e igualdade. Se as avaliações internas nem sempre são justas e realistas, as externas sabemos que o são.  O aluno tem a possibilidade de desenvolver um bom trabalho durante o ano letivo, para acabar com uma boa média interna. O exame nacional é o local e momento de pôr o conhecimento adquirido em pratica, onde este pode demonstrar que é capaz de aplicar tal conhecimento em situações novas e contextos diferentes”, atalhou.

“Não sou da opinião que os exames favoreçam os alunos que têm notas altas, muito pelo contrário. Os exames servem para colmatar diferenças abismais entre a avaliação interna e a avaliação externa que é igual para todos”

Já quanto à questão de saber se os exames nacionais discriminam os alunos porque favorecem aqueles que têm notas altas e melhores condições de estudo e penaliza os alunos com notas mais baixas, Carolina Granja recordou que o “ensino em si é discriminatório, mais não seja porque é simultaneamente um reflexo da sociedade e reflete-se nesta também”.

“Não sou da opinião que os exames favoreçam os alunos que têm notas altas, muito pelo contrário. Os exames servem para colmatar diferenças abismais entre a avaliação interna e a avaliação externa que é igual para todos. Efetivamente, quem não teve meios de acompanhar o ensino pela internet foram os alunos que não tinham condições para tal no seu meio doméstico, e por isso acabaram por sair prejudicados desta situação. Mas em momento algum os exames em si são um meio de acentuar essas desigualdades. Pelo contrário equilibram uma balança entre alunos que podem e têm condições de acesso a um ensino privado, e aqueles que não têm. Assim sendo, uma última avaliação, igual para todos, garante que os mais desfavorecidos não têm menos oportunidades de provar o seu conhecimento, do que os mais favorecidos”, afiançou, reiterando ser contra o fim dos exames nacionais.

“Não, de todo. Como já referi, considero-os uma ferramenta essencial. O nosso ensino tem muitas falhas e defeitos, certamente, mas os exames não são um deles. Os exames colocam todos no mesmo patamar e a responder às mesmas perguntas. A avaliação é feita por professores que não têm qualquer informação sobre o aluno que estão a avaliar, isso garante imparcialidade. Imparcialidade essa que nem sempre vemos na sala de aula. Para além do mais, ajudam no combate à inflação de notas que se verifica em certas escolas. Os alunos do ensino público não conseguem competir se não estiverem no mesmo ponto de partida”, confessou.

Inês Sampaio, da área de Ciências e Tecnologias, também partilhou  da mesma opinião quanto à pertinência dos exames nacionais.

“Os exames nacionais são uma forma de avaliar todos os alunos de igual forma”, asseverou, reconhecendo que  apesar das dificuldades apresentadas pelo ensino à distância, o modelo dos exames foi alterado para que as dificuldades não sejam tão significativas.

Quanto à existência de outro metido de avaliação, que não os exames nacionais, Inês Sampaio, assumiu que os exames continuam a ser a melhor forma de avaliar todos os alunos nas mesmo circunstâncias e de forma justa.

Já se os exames nacionais discriminam os alunos porque favorecem aqueles que têm notas altas e melhores condições de estudo, a aluna declarou que o objetivo dos exames não é favorecer ou desvalorizar certos alunos.

“São simplesmente mais uma forma de avaliar complementar à nota interna do aluno, em que podemos avaliar todos os alunos nas mesmo condições e perceber as duas capacidades”, anuiu.

Falando da realização de exames nacionais, no atual quadro pandémico, Anabela Brochado, docente no Agrupamento de Escolas de Felgueiras, referiu as escolas têm espaços amplos onde os alunos e vigilantes podem concretizar os exames com distanciamento de segurança.

“ As escolas têm espaços amplos onde os alunos e vigilantes podem concretizar os exames com distanciamento de segurança, mas mais do que esses espaços, que muitos questionam ser desenquadrados a um local de exame, por exemplo cantinas, polivalentes ou ginásios, as escolas possuem muitas salas, todas elas desertas nesta época de exames que podem receber um número muito reduzido de alunos mas que lhes dão esses alunos a possibilidade de realizar os exames em condições físicas normais. Uma escola poderá ter o dobro ou triplo das salas de exame a funcionar, garantido o conforto dos alunos e o distanciamento. Uma vez que há exames, considero que devem ser realizados presencialmente na escola. Além disso, estamos já com aulas presenciais nas disciplinas de exame…porque não o exame?”, frisou.

“Aqueles alunos que optarem pelo ingresso no ensino superior podem decidir que exames realizam tendo em conta as suas preferências de candidatura. Este sim é um sistema justo”

A professora confirmou que apesar dos exames nacionais serem discutíveis, servem de critério para acesso ao ensino superior para além da média interna do ensino secundário.

“Os exames nacionais são discutíveis sim. Sempre foram e sempre serão. Mas sou de opinião que deve existir algo que sirva de critério para acesso ao ensino superior para além da média interna do ensino secundário. Apenas a média interna poderia levar, sim, às desigualdades ou injustiças. Avaliar é um processo bastante subjectivo e é necessário algo que possa ser o mais uniforme possível para igualar tudo e todos.   O ensino superior, como todos os outros, deve ser encarado com seriedade. Estamos a formar o futuro, queremos médicos, engenheiros, professores e jornalistas responsáveis, capazes e preparados. Alguma selecção terá de existir e os exames nacionais contribuem para essa selecção. Claro que a selecção em si nunca é bem recebida por todos mas temos de aceitar que a selecção tem de existir. Cada um de nós tem aptidões que nos levam a um determinado caminho. Os exames podem ser um auxílio nessa orientação. A mostrar aquilo onde somos melhores”, declarou, frisando  concordar muito mais com a forma como os exames estão aplicados este ano letivo, decorrente da situação imposta pela pandemia.

“Os alunos devem fazer o seu percurso no ensino secundário sem a obrigatoriedade de exames e sem que estes interfiram na sua média interna. Aqueles alunos que optarem pelo ingresso no ensino superior podem decidir que exames realizam tendo em conta as suas preferências de candidatura. Este sim é um sistema justo. Faz o exame quem quer. Todos os alunos são preparados para o exame porque o programa da disciplina é igual para todos e todos têm à disposição a oportunidade de os realizarem”, constatou. 

“As escolas têm em desenvolvimento vários projetos de estudo de como alterar critérios de avaliação e como proceder a uma avaliação eficaz ou eficiente, mas na verdade é difícil chegar a uma fórmula”

Confrontada se é a favor da alteração ao modelo de avaliação, Anabela Brochado reconheceu que urge fazer alguns ajustes.

“Sim, defendo alguns ajustes. Começo logo no ensino básico. A avaliação de 1 a 5 é muito limitativa. Não permite distinguir os alunos verdadeiramente e, não raras vezes, dá uma falsa informação a alunos e encarregados de educação. Cada um dos níveis é imensamente abrangente e o aluno que tem uma prestação no âmbito dos 20% por cento pode ser muito diferente daquele que tem uma prestação no âmbito dos 45 %, mas em termos de nível na escala de avaliação ambos são avaliados com nível 2. Acontece que depois esse nível 2 de 45% será um nível 3 por estar muito longe dos 20% mas vai causar nova incompatibilidade com o aluno que teve um nível 3 na ordem dos 65%…. ou seja, esta escala tão pequena não permite distinguir… e no fim o que prevalece não foi a explicação da avaliação que o conselho de turma atribuiu mas sim o número que consta no registo de avaliação. Aqui há trabalho a fazer e sou a favor da mudança. A avaliação na escala aplicada no ensino secundário de 0 a 20 valores permite uma informação mais eficaz e próxima da realidade quanto ao desempenho dos alunos”, assumiu, confirmando que esta pandemia, veio evidenciar que devemos valorizar no outro e como devemos olhar para cada um dos alunos.

“ Mas não é só a nível da forma como é mensurada, no final do período ou ano letivo, a avaliação. Também por vezes a forma como chegamos a esses números necessita de uma atualização. O mundo mudou imenso. Esta pandemia, paragem obrigatória, e mudança de formas de trabalhar veio mostrar a todos quais as skills que realmente importam, o que devemos valorizar no outro e como devemos olhar para cada um dos nossos alunos. As escolas têm em desenvolvimento vários projetos de estudo de como alterar critérios de avaliação e como proceder a uma avaliação eficaz ou eficiente, mas na verdade é difícil chegar a uma fórmula. Difícil mas necessário. É preciso perceber o que valorizar, como valorizar e como o fazer da forma mais justa e equitativa possível. O difícil é retirar o carácter de subjectividade à avaliação sem que esta se transforme em processos meramente mecânicos, com grelhas carregadas de números. Humanizar a avaliação, valorizar o que se pretende alcançar nas gerações do amanhã e incentivar cada um a superar-se diariamente. Este é um desafio da avaliação”, relembrou.