Novum Canal – Sempre novum, sempre seu.

Novum Informação – Noticias da região

Covid-19 deixa cineclubes e cinemas numa situação mais débil

Fotografia: sessão cine-concerto na Casa das Artes em Outubro de 2019 do filme A Rosa do Adro (numa parceria com a Universidade Nova de Lisboa, a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Cinemateca Portuguesa). Créditos fotografia: Marco Duarte

A crise sanitária  que está a atingir Portugal e obrigou o Governo a decretar o Estado de Emergência e de Calamidade Pública também se está a fazer repercutir nos cineclubes e na projeção de filmes, com algumas salas a tentarem retomar a atividade paulatinamente e a adaptarem-se à nova normalidade.

Ao Novum Canal,  a presidente do Clube Português de Cinematografia – Cineclube do Porto Joana Canas Marques, realçou que com a Covid-19 e a fase de confinamento a que o país esteve sujeito, o impacto na produção foi imediato e originou a paragem de várias produções e a nível de exibição foi uma época de interrupção total.

Joana Canas Marques declarou mesmo que o Cineclube do Porto a partir do dia de março deixou de exibir filmes.

“Na área de produção o impacto foi imediato com a paragem de várias produções e o adiamento sem prazo de retorno de vários projectos. Como sabemos o sector do audiovisual foi amplamente prejudicado com esta pandemia e a obrigatoriedade de interrupção dos trabalhos. Agrava-se o facto de não existir um estatuto adequado ao modelo de trabalho destes trabalhadores que impede que os mesmo recebam os apoios atribuídos à maioria das profissões.  A nível da exibição foi uma época de interrupção total. O Cineclube do Porto, assim como outros Cineclubes e exibidores comerciais no país, viram a sua actividade parada e a retoma condicionada por vários factores que vão desde os logísticos, aos de distribuição e acesso aos filmes, aos económicos a nível directo dos apoios recebidos”, disse, salientando que apesar do atual contexto em que está mergulhado o cinema, “os últimos anos têm sido anos de grande desenvolvimento da indústria do cinema em Portugal, com o aumento da produção e a sedimentação de uma indústria especializada e dedicada ao cinema e ao meio audiovisual”.

“Contribuiu muito para este cenário, que apesar das várias e conhecidas dificuldades do sector, é um cenário vibrante, o aparecimento das escolas de cinema e o reconhecimento internacional do cinema português no último quarto do século XX, e a criação de festivais internacionais de cinema em Portugal que permitiram a inclusão de forma mais alargada do cinema produzido em Portugal num circuito internacional de festivais.  A nível da exibição de cinema o cenário muito problemático no início do Sec.XXI com o encerramento de grande parte das salas de rua e a permanência quase em exclusivo, fora dos grandes centros urbanos, de cinema apenas no contexto de centro comercial, foi melhorado nos últimos 20 anos podendo hoje em dia dizer-se que existe uma rede de exibição sólida, muito graças ao papel dos vários cineclubes pelo país que servem de pontos de exibição e distribuição do cinema por todo o território.  Tomemos por exemplo o caso do Porto que desde 2010 contava com as sessões regulares do Cineclube e o cinema no Teatro do Campo Alegre (Medeia Filmes) e, neste momento, tem várias salas de exibição de cinema na cidade, a Casa das Artes (Cineclube do Porto), o Teatro Rivoli (Medeia Filmes + Festivais de cinema), o Teatro do Campo Alegre (Medeia Filmes), o Cinema Passos Manuel (Festivais de Cinema e outras iniciativas) e o Cinema Trindade que criaram uma dinâmica forte para o público de cinema”, expressou.

Questionada sobre se existem condições técnicas, higiénico-sanitárias para retomar a exibição de filmes, Joana Canas Marques respondeu afirmativamente, salientando, que o Cineclube do Porto exibe desde 2013 regularmente na Casa das Artes, sobre a alçada da DRCn, às quintas-feiras e aos Sábados.

“Foram tomadas, em conjunto com a DRCn as medidas necessárias para a adequação da sala às recomendações da DGS e pensamos muito em breve poder tomar com segurança as nossas sessões”, expressou.

“A crise sanitária afectou grandemente os exibidores comerciais que viram as suas receitas quebradas e depois condicionadas a um número de lugares por sala aproximado a 1/3”

Ao Novum Canal, a presidente do Clube Português de Cinematografia – Cineclube do Porto considerou mesmo que com crise sanitária o encerramento temporário de cinemas e cineclubes, muitos exibidores comerciais viram as suas receitas diminuírem.

“Não é um temor é uma realidade concreta. A crise sanitária afectou grandemente os exibidores comerciais que viram as suas receitas quebradas e depois condicionadas a um número de lugares por sala aproximado a 1/3. No caso dos Cineclubes penso que o cenário será mais grave a médio prazo pois tememos que os apoios futuros para o sector sejam ainda mais diminutos. Ou seja, com a crise económica que se prevê após a crise sanitária é previsível, infelizmente, que o sector da cultura seja ainda mais causticado e que seja mais difícil obter apoio financeiro para as actividades que os cineclubes desenvolvem.  O problema do financiamento dos cineclubes era já gritante antes da crise sanitária e continuará a agravar-se nos próximos anos com a crise económica caso não sejam tomadas medidas directas e concretas para um sector que tem um valor de utilidade pública no sentido de distribuição do cinema pelo território e de acessibilidade ao mesmo. Na verdade, a rede de cineclubes é uma rede educativa, gerida por intermédio de associações, e por isso sem fins lucrativos, que necessita de vários apoios para poder manter a sua actividade que vai desde a exibição de filmes, ao estudo do cinema, às actividades educativas, etc.”, concretizou.  

A responsável Clube Português de Cinematografia – Cineclube do Porto defendeu que o cinema deveria ser mais apoiado, recordando que os cineclubes além função de exibição de cinema de qualidade, tem um papel educativo da história do cinema e consequentemente da cultura cinematográfica portuguesa e do mundo.

“Toda a cultura deveria ter um apoio superior. Muitas vezes é esquecido o papel da cultura enquanto valor educativo e social. O exemplo dos cineclubes é um bom exemplo. Além da função de exibição de cinema de qualidade, tem um papel educativo da história do cinema e consequentemente da cultura cinematográfica portuguesa e do mundo, tem ainda, pela proximidade com as populações um valor social inegável. Este tipo de iniciativas são geradoras de benefícios que vão muito além da mera difusão cinematográfica.  O mesmo se aplica, na sua generalidade, aos variados sectores da cultura. A cultura gera valor. Quando mais for investido na cultura e em particular na área da indústria do cinema que, como inicialmente afirmámos, se encontrava numa altura pujante da sua produção, mais valor esta gerará. A ideia de ver o cinema e a cultura como algo acessório é um erro estratégico. É necessário aumentar o investimento e fomentar a produção, a exibição e a educação das pessoas para o cinema, de maneira a torná-las também consumidoras do mesmo criando uma verdadeira indústria cultural, geradora de valor económico, mas também social e democrático”, confirmou.

Joana Canas Marques, apesar do período menos positivo que atravessa o setor mostrou-se confiante que os agentes e os vários atores ligados a esta área vão ser capazes de fazer face às adversidades.

“A história do Cineclube do Porto comprova, nestes 75 anos de existência, que os períodos mais conturbados ou menos favoráveis são ultrapassados. É essa resistência em existir que faz com que o Cineclube do Porto seja hoje em dia o Cineclube mais antigo do país em actividade, e que nos orgulha pela sua história longa e rica mas também pelo reconhecimento que recebemos actualmente dos vários sectores da comunidade em que nos inserimos”, assegurou.  

Confrontada sobre o atual panorama dos cineclubes, Joana Canas Marques reconheceu que o futuro é de “inquietação”, embora muitos cineclubes já estão em atividade ou planeiam estar.

“É um panorama de inquietação e preocupação pelo futuro próximo dos cineclubes mas também do cinema em Portugal. Muitos destes cineclubes já estão em actividade ou planeiam estar. Temos o exemplo do Cineclube de Joane que recomeçará a exibição com o seu programa de cinema ao ar livre Cinema Paraíso durante o verão, ou o cineclube de Avanca que anunciou sessões em sistema drive-in durante o Festival de cinema de Avanca. Está na génese dos cineclubes resistir e procurar criar o máximo com o pouco que vão conseguindo, trabalhando em conjunto com a sua comunidade  procurando servi-la da melhor forma. Penso que é isso que todos procuram agora conseguir. Retomar a actividade e continuar a fomentar o amor pelo cinema e pela experiência do cinema em sala”, referiu, esclarecendo que o Cineclube do Porto deverá reabrir no início do Verão, apesar de não ter ainda nenhuma data definida.

“Infelizmente, ainda não temos data concreta mas esperemos que no início do verão. Queremos muito poder regressar a sala e ao encontro com os nossos sócios e espectadores que constituem para nós parte integrante da comunidade do Cineclube do Porto. Queremos também recomeçar a tempo de programarmos as nossas sessões de verão ao ar livre  As noites de Boris que esperamos aconteçam pelo segundo ano consecutivo no Jardim da Casa das Artes depois de anos a realizarem-se na Cooperativa Árvore nas Virtudes”, manifestou.

Refira-se que o Cineclube do Porto é o Cineclube mais antigo do país e dos mais antigos da Europa.

“Foram feitas alterações no sistema de AVAC por forma a garantir uma constante renovação do ar das salas de cinema, definidos fluxos de circulação, abolidos os intervalos, garantida distância de segurança dentro das salas (lugares marcados)…”

Thiago Cardoso, do Cinemax Penafiel, alinhou, também pela mesma bitola, quando questionado acerca do atual momento que vive o cinema e a indústria do cinema.

“Muito difícil. O mercado da exibição mundial tem registado os piores números da história”, avançou, sustentando que a Covid-19 agravou substancialmente este cenário com “cinemas fechados, atrasos na produção e estreias de filmes”, acrescentou, sublinhando que o Cinemax Penafiel deixou de exibir filmes desde 16 março, tendo reaberto no dia 11 de junho, estando a  programação disponível www.cinemax.pt .

Já quanto à existência de condições técnicas, higiénico-sanitárias para retomar a exibição de filmes,  Thiago Cardoso confirmou que o Cinemax Penafiel  se preparou devidamente para acautelar a segurança e bem-estar quer dos  cinéfilos quer dos próprios funcionários.

“Foram feitas alterações no sistema de AVAC por forma a garantir uma constante renovação do ar das salas de cinema, definidos fluxos de circulação, abolidos os intervalos, garantida distância de segurança dentro das salas (lugares marcados),limpeza e desinfecção constante dos materiais e superfícies de contato, obrigação da utilização da máscara de cinema dentro da sala (enquanto não consome produtos alimentares), entre outros”, atalhou.

“Atravessamos um momento complicado e por mais que queiramos estes apoios levam sempre algum tempo a chegar”

Questionado sobre se teme que com a crise sanitária muitos cinemas, por via da perda de receitas, tenham dificuldades em reabrir ou venham a sentir dificuldades em reabrir os seus espaços a curto/médio prazo, ,  Thiago Cardoso confirmou que esta situação poderá ser agravada pela falta de conteúdo.

“ As primeiras grandes estreias só começam a chegar às salas em meados de julho”, garantiu, sustentando que os exibidores comerciais e os cinemas atravessam tempos difíceis, ainda que Associação de empresas cinematográficas e os órgãos competentes tenham sido céleres nas respostas.

“Atravessamos um momento complicado e por mais que queiramos estes apoios levam sempre algum tempo a chegar. Temos sentido o apoio da Associação de empresas cinematográficas e os órgãos competentes têm sido céleres nas respostas”, recordou, mostrando-se otimista que vai ser possível inverter esta fase menos positiva.

“Sim. É conjuntural. A maratona começa no primeiro passo”, afiançou.

Fotografia: Casa das Artes Felgueiras

“O maior inimigo do recomeço das actividades culturais, no respeito pelas normas definidas pelas autoridades sanitárias, é o medo”

Nuno Higino, responsável pela programação da Casa das Artes de Felgueiras,  admitiu, também, que o cinema e a indústria cinematográfica vive um momento difícil, como o das outras artes.

“As artes, cinema incluído, são consideradas coisas periféricas, dispensáveis, pelos decisores políticos. Portanto, há sempre outras prioridades…”, asseverou, afirmando que a Covid-19 teve repercussões imensas no setor que porque as salas estiverem fechadas quase três meses.

“Para quem vive do seu trabalho diário, sem folgas orçamentais, foi com certeza (está a ser…) dramático”, informando que a Casa das Artes fechou depois do primeiro fim de semana de Março, tendo o último espetáculo decorrido no 6 de março.

Questionado sobre a existência de condições técnicas, higiénico-sanitárias para retomar a exibição de filmes, Nuno Higino confirmou “o maior inimigo do recomeço das actividades culturais, no respeito pelas normas definidas pelas autoridades sanitárias, é o medo”.

“Medo de que algo corra mal, que as pessoas não cumpram, que se juntem antes ou no final dos espectáculos. Medo do aparecimento dum novo foco de contágio…”, atalhou, acrescentando que os agentes que têm uma gestão pública e são subsidiados por dinheiros públicos irão recompor-se rapidamente, desde que haja sensibilidade e boa vontade políticas.

“Os que são privados, ou aqueles onde faltar sensibilidade política, terão muitas dificuldades em recomeçar”, precisou.

Apesar das dificuldades, Nuno Higino admitiu que cinema deveria ser apoiado, não mais do que as outras artes.

“Aliás, outras artes necessitam mais de apoio porque implicam muito mais despesas, como o teatro, por exemplo”, adiantou, manifestando esperança que o setor possa inverter esta fase menos positiva.

“Claro que vai. Se há coisa que resiste às maiores adversidade é as artes e a cultura…”, reconheceu, confessando que não está prevista uma data para a exibição de Filmes na Casa das Artes de Felgueiras.

“Não há previsão porque, a somar à pandemia, a Casa das Artes vai entrar em obras de manutenção, já previstas anteriormente…”, recordou, lembrando que quanto ao cenário que caracteriza os demais cinemas na região, não tem conhecimento do que se passa nos municípios vizinhos.