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“O nosso país não está preparado para desenvolver um ensino à distância adequado a todos os alunos”, diretora técnica do Instituto de Desenvolvimento, Fátima Nunes

Apesar  da reabertura dos jardins-de-infância e dos estabelecimentos de ensino para os alunos do 11.º ano e 12.º ano de escolaridade, são milhares os alunos do primeiro ao 10.º ano que continuam a terem aulas através do ensino à distância.  Para muitos pais e encarregados de educação  que acompanharam os seus educandos na fase de confinamento e mesmo no período de desconfinamento, os alunos continuam a ser alvo de uma intensa sobrecarga de trabalhos de casa.

Para perceber melhor  esta realidade e se efetivamente os discentes estão a ser alvo de um volume anormal de trabalhos com consequências quer para os alunos quer para a relação familiar, o Novum Canal falou com a diretora técnica do Instituto do Desenvolvimento, Fátima Nunes, instituição situada em Paredes, versada nas questões do desenvolvimento e na abordagem em temas relacionados com crianças com dificuldades de aprendizagem.

Sobre esta realidade e a alteração  de rotinas, Fátima Nunes afirmou que o ensino à distância, quer no período de confinamento quer no pós-desconfinamento teve como consequências a alteração drástica nas rotinas e do próprio funcionamento das famílias.

“Logicamente com o ensino à distância houve uma alteração drástica nas rotinas e no próprio funcionamento das famílias. Claro que cada caso é um caso, mas tenho conhecimento de, por exemplo, uma família em que os pais são professores e têm três filhos, todos em teletrabalho, como se faz para gerir este funcionamento?”, questionou, sustentando que o excesso de trabalhos de casa de que os pais se queixam depende de escola para escola.

“Falando de crianças mais pequenas, a frequentar o 1º ou 2ºano, creio que sim. Os pais tiveram que assumir um pouco o papel de professores porque estas crianças ainda não são totalmente autónomas no seu estudo”

“Depende muito das escolas…sei que há professores que têm exagerado nos trabalhos de casa mas também sei que outros são mais regrados e, por vezes, nem marcam”, acrescentou, lembrando que os em  crianças a frequentar os primeiros anos do ensino básico, muitos pais e encarregados de educação tiveram que assumir um pouco o papel de docentes.

“As crianças mais pequenas, a frequentar o 1º ou 2ºano, creio que sim. Os pais tiveram que assumir um pouco o papel de professores porque estas crianças ainda não são totalmente autónomas no seu estudo. Nas outras idades, passa muito pelos métodos de estudo de cada um”, sustentou, sublinhando que o teletrabalho dos pais, a sobrecarga de trabalhos de casa provocou um desgaste emocional por parte dos pais e níveis  de ansiedade elevados nas crianças, com repercussões na sua auto-estima.

Falando das alterações ao nível familiar, Fátima Nunes referiu que nas mães o sentimento frustração e culpabilização agudizou-se.

“Sem duvida… As mães, que por norma, é o elemento que ficou em casa em teletrabalho, sente uma grande frustração e culpabilização, porque nem sempre consegue corresponder às exigências do seu trabalho e dos seus filhos que estão em telescola. Como estão em casa, existe uma falsa sensação de que devia estar disponível totalmente para tudo. O que não é verdade, está a trabalhar… A gestão familiar torna-se muito mais difícil”, assumiu.

“O nosso país não está preparado para desenvolver um ensino á distância adequado a todos os alunos”

A diretora técnica realçou, também, que a pandemia trouxe consequências negativas no agravamento das desigualdades sociais e educativas.

“Começando pelas desigualdades educativas, sim. Houve um agravamento na medida em que nem todos os alunos têm, por exemplo, computador, internet ou smartphone. Não tendo estes equipamentos ficam impossibilitados de assistir a aulas síncronas, logo, em desigualdade. Consequentemente, repercute-se ao nível social também. As experiências, as vivências diárias continuam a ser diferentes e a agravar a desigualdade social”, asseverou.

Questionada sobre se as crianças e jovens com dificuldades de aprendizagem ficaram desprotegidas na fase de confinamento e mesmo no período pós-desconfinamento, Fátima Nunes esclareceu que estas ficaram, talvez, com maior dificuldade no acesso à aprendizagem.

“Não digo que tenham ficado desprotegidas mas ficaram, talvez, com maior dificuldade no acesso à aprendizagem”, referi, frisando que não existe um plano específico para alunos com necessidades especiais fazerem a necessária reintegração de conhecimentos.

“Que eu tenha conhecimento, não existe. No entanto, parece-me que caberá a cada escola desenvolver as medidas e as estratégias necessárias para que esses alunos não sejam prejudicados”, atalhou, afiançando que Portugal não está preparado para desenvolver um ensino á distância adequado a todos os alunos.

“Parece-me que será necessário criar estruturas de apoio tanto para os alunos com dificuldades de aprendizagem, como para todos os outros. Os próprios professores não estavam preparados para este tipo de trabalho com uma exigência totalmente diferente aquela que enfrentam numa sala de aula presencial”, recordo, reconhecendo, no entanto, que o ensino à distância torna mais difícil a educação inclusiva.

“Claro que sim! Basta pensar na desigualdade ao nível dos próprios equipamentos; há famílias que não têm computador, não têm internet, logo torna-se impossível cumprir o princípio base da escola inclusiva: uma escola para todos”, declarou, esclarecendo ainda que há pais a atingirem os limites por causa desta situação.

“Sim, é verdade que muitos são os pais que se sentem esgotados com esta situação. Mas também sabemos havia pais que se demitiam da sua responsabilidade como educadores, no acompanhamento dos seus educandos. Para esses pode ter sido bom”,  confessou.

Questionada sobre a decisão do Governo e das autoridades de saúde terem decido fazer regressar os alunos do 11.º e 12.º  às aulas presenciais, Fátima Nunes defendeu que estes poderiam ter-se mantido em casa, com um acompanhamento mais intensificado, relevando, no entanto, a importância de salvaguardar sempre a saúde pública.

 “Creio que poderiam manter-se em casa, talvez com um acompanhamento mais intensificado para poderem preparar-se melhor para os exames. Sou a favor de tudo o que seja evitar riscos para a nossa saúde”, disse, salientando acertada a opção de manter os alunos do primeiro ciclo até ao 10.º ano de escolaridade em casa, com aulas à distância.

“Numa fase de pandemia o principal é mesmo a prevenção. A saúde é um bem muito precioso e quando se trata da saúde dos nossos filhos, está mesmo em primeiro lugar!” precisou.