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Empresas pirotécnicas vivem momentos aflitivos e dizem estar sem mercado

Fotografia: GJR Pirotecnia e Explosivos

São várias as empresas de pirotecnia que  estão a viver momentos aflitivos, na  sequência da crise sanitária e das orientações e diretrizes assumidas pelo Governo e as autoridades de saúde de cancelar as festas e romarias.

Joaquim Melo, da GJR – Pirotecnia e Explosivos, SA, com sede em Rio de Moinhos, concelho de Penafiel, assumiu que os impactos no setor são “avassaladores”.

“Os impactos são avassaladores. Este setor foi reduzido a zero. Equiparados ao setor dos eventos musicais, culturais e de animação popular, ficamos sem mercado. E, ainda pior, não se vislumbra plano de contingências para o regresso da atividade gradual ou, como outros serviços similares tentam conseguir, através de uma qualquer prestação em versão digital ou alternativa.  E o cenário é ainda mais negro pois não somos considerados um serviço essencial, mesmo sabendo que fazemos parte do setor que ajuda a alimentar de alegria e brilho a alma e espírito de todos. Por estas, e outras mais, razões a luz não se vê ao fundo deste enorme túnel escuro”, disse.

Ao Novum Canal, Joaquim Melo reconheceu que a atual crise sanitária fez com que a empresa para a qual labora tivesse que cancelar toda a exportação que tinha programada para França e Canadá e eliminou todos os espetáculos pré-agendados.

“Já impediu toda a atividade comercial da época da Páscoa, cancelou toda a exportação que tínhamos programada para França e Canadá e eliminou todos os espetáculos pré-agendados para o verão. E em relação à época do Natal e Fim de Ano as esperanças são reduzidas. Por isto será uma realidade incontornável que o setor irá agudizar totalmente. Acrescento que cerca de 80% do mercado é referente às festividades religiosas O cancelamento tão prematuro comprometeu a organização das confrarias ou comissões de festas já que estas dependem de angariação de receitas/donativos das comunidades e esta tarefa demora meses a concretizar”, expressou.

Face a este cenário, Joaquim Melo precisou que existe o risco de as empresas do setor não poderem comportar os custos com os trabalhadores e terem que optar pelo seu despedimento.

“Tenho a certeza que várias empresas vão ter que despedir trabalhadores, ou mesmo fechar. Os custos diretos mensais com as responsabilidades no que diz respeito a ordenados, Segurança Social, Finanças, encargos bancários, manutenção/gestão industrial, segurança laboral e os SEGUROS AT E RC impostos a esta atividade são enormes. Sem receitas previsíveis até ao Fim do Ano julgo que não haverá capacidade para as empresas suportarem estes encargos. Muitas delas já estão em Lay-Off e acredito que o próximo passo será o fecho da atividade e o despedimento coletivo”, atalhou, acrescentando: “Receio que será uma fatalidade que as várias empresas vão sofrer. Senão fecharem, pelo menos irão reduzir o seu quadro técnico laboral ao mínimo comportável na esperança de que haja uma retoma, que será lenta e de duração imprevisível”.

Questionado sobre a opção que foi assumida pelas autoridades de proibir as romarias e festividades, Joaquim Melo esclareceu que a decisão de cancelar estes eventos foi precipitada.

“Essa decisão de cancelamento, no meu ponto de vista, foi muito precipitada, e injustificada, pelas nossas autoridades religiosas e governamentais. Foi a gota de água que nos fará afundar”, confirmou,  sublinhando que existiam outras opções.

“Julgo que uma das opções seria aguardar mais algumas semanas para avaliar a razoabilidade para cancelamentos. Ao mesmo tempo estudar soluções para a realização dos serviços, fazendo inclusive, a redução dos dias dos mesmos, adequação dos espaços a utilizar, adaptar a configuração dos eventos, apelando/impondo (como já vamos assistindo em concertos à porta-fechada) às pessoas para utilizarem as máscaras e outros acessórios de proteção e informando das regras a cumprir. A pirotecnia pode, e deve, ser vista à distância e de vários pontos de observação. Podiam ser criadas zonas de espetáculo para público, etc.”, atalhou.

Quanto à não realização da Agrival e ao espetáculo piromusical que encerra o certame, da responsabilidade da G.J.R. – Pirotecnia e Explosivos, S.A., Joaquim Melo declarou que os impactos far-se-ão sentir a vários níveis.

“Terá um enorme impacto, quer comercial, financeiro e sentimental. Fizemos os espetáculos de todas as edições da Agrival… Crescemos com a Feira e a Feira beneficiou com o crescimento nacional e internacional da GJR”, declarou, defendendo que devem existir mais apoios para o setor, empréstimos a fundo perdido, isenção de juros, entre outros.

“Sem dúvida! Este setor pela sua especificidade, natureza comercial e industrial, tradição secular e prestígio nacional e internacional tem de ter um plano financeiro em que se equaciona-se vários apoios, tais como: empréstimo a fundo perdido, isenção de juros, isenção de carga fiscal sobre contribuição social (o que defendo para as áreas dos audiovisuais, produção de eventos, artistas, técnicos e serviços de animação). Este apoio seria devidamente documentado, escrutinado e adequado a cada empresa e sua realidade industrial, social e de serviço no âmbito do divertimento, arte e cultura”, sublinhou.

A GJR – Pirotecnia e Explosivos, SA é uma empresa  portuguesa conhecida no mercado nacional e de elevado grau de profissionalismo, fornecendo explosivos e pólvoras para o setor das obras públicas e civis. A empresa fabrica todo o tipo de produtos e presta todos os serviços para a área de eventos e espetáculos.

“Empresários estão a fazer uma espécie de navegação à vista”

Fernando Macedo, da empresa Macedos Pirotécnica, Lda, com sede na Lixa, concelho de Felgueiras, empresa com mais de 86 anos de história, presentes em Portugal Continental e nas ilhas da Madeira e dos Açores,  mostrou-se igualmente preocupado com o atual  momento e futuro do setor.

Ao Novum Canal, o empresário esclareceu que a empresa, que faz parte do grupo Macedos, e outras da mesma atividade têm sentido de forma severa os impactos da crise sanitária e das medidas subsequentes que vieram a ser implementadas pelas autoridades.

“As empresas do setor estão parados. Há três meses que a atividade estagnou, não existindo eventos definidos, nem critérios firmados por parte das autoridades quanto a uma possível abertura do setor, à semelhança do que já aconteceu em relação a outros setores de atividade”, avançou, recordando que sem metas, nem previsões para uma possível retoma do setor, os empresários estão a fazer uma espécie de navegação à vista.

Fernando Macedo recordou que o cancelamento  das festas e romarias acabou por agudizar ainda mais o setor, e mesmo os municípios que ponderariam ainda a possibilidade de eventualmente poderem fazer alguma coisa não definiram se vão avançar ou não.

Sobre o impactos económico-financeiros,  Fernando  Macedo  reconheceu que 2020, à exceção de Dezembro e do Fim de Ano, poderá estar praticamente comprometido em termos de faturação.

 Fernando Macedo manifestou, também, estar seriamente preocupado com o futuro do setor e admitiu a hipótese de face a este cenário e à indefinição que caracteriza o setor muitas empresas entraram em insolvência.

Falando da atividade, Fernando Macedo recordou que o setor dá emprego a muitos colaboradores e famílias. Dando como exemplo a sua empresa, esclareceu que a Macedos Pirotecnia tem 40 funcionários, dispondo de uma bolsa de colaboradores, constituída por 180 técnicos credenciados que trabalham para a empresa em regime de part-time, abrangendo um universo de mais de 150 famílias.   

O empresário relembrou que o setor da pirotécnica se pode dividir em três épocas, a da Páscoa, que corresponde a 10% da faturação, a do Verão, que corresponde a 70% a o final do ano, com o Natal e a Passagem do Ano, que equivalerá a 20% do volume de faturação.

Admitindo a hipótese das empresas do setor laborar no final do ano, Fernando Macedo considerou que tal será insuficiente para fazer face à paragem ao longo do ano e para liquidar os impostos que as empresas têm de pagar, num ano atípico e sem faturação.

Quanto aos apoios e à possibilidade das empresas poderem recorrer ao lay-off, Fernando Macedo admitiu que os dispositivos e mecanismos existentes são de caráter geral e insuficientes para um setor que tem características específicas.

“Existe legislação para áreas como o teatro e cinema e para os concertos, mas não para esta área”, asseverou.