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Crise agudiza condições dos estudantes do ensino superior que reivindicam medidas do Governo

Várias centenas de estudantes do ensino superior agendaram, esta quinta-feira, um protesto para reivindicar melhor condições  e medidas de apoio, na sequência da crise sanitária Covid-19, numa iniciativa organizada pela plataforma de apoio a estudantes Quarentena Académica.

O Novum Canal ouviu o testemunho de vários estudantes a frequentar o ensino superior no sentido de auscultar  as suas opiniões e perceber quais os verdadeiros problemas que estão a afetar esses mesmos estudantes.

Duarte Moura, estudante de Engenharia Biomédica no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP) assumiu que  com a Covid-19, os alunos foram confrontados a uma realidade nova e tiveram que se adaptar a essa realidade, o ensino à distância, cumprindo assim aquilo que foram as orientações da Direção-Geral de Saúde.

“A crise sanitária, resultante da pandemia covid-19 teve, a meu ver, um impacto de cariz negativo nos estudantes do ensino superior. Fomos confrontados com diversas situações a que não estávamos habituados, nomeadamente no ensino à distância. Deixou assim de ser possível o encontro entre estudantes e docentes para o esclarecimento de dúvidas, o que no ensino superior é um importante mecanismo para a melhor assimilação de conteúdos. Os estudantes viram-se também obrigados, independentemente da instituição, a cancelarem a semana académica, que para muitos representava o culminar de um ciclo no ensino superior e, para outros como eu, o início. Obviamente que sentimos a desolação por a semana da “Queima das Fitas” não se realizar mas, ao mesmo tempo, compreendemos perfeitamente a situação”, disse, salientando que o método de ensino à distância constituiu uma experiência nova para todos, quer para alunos, quer para professores.

“O tipo de avaliação foi também alterado com a aprovação de novas fichas das unidades curriculares. As frequências que existiam durante o semestre deixaram de existir e deram lugar a variados trabalhos e apresentações que juntamente com exame global final”

“Devido a isto, creio que todos estamos sujeitos a um período de adaptação, mais curto para algumas pessoas e mais longo para outras. Considero que a decisão de encerrar as escolas e universidades e optar pelo ensino à distância foi, mediante a situação estamos a passar, a mais indicada. Por outro lado, as mensagens que os professores tentam passar, não acontecem de forma tão eficazes e assertivas que no ensino presencial. Assim, disto resulta uma prestação não tão positiva dos alunos quanto o desejável. O tipo de avaliação foi também alterado com a aprovação de novas fichas das unidades curriculares. As frequências que existiam durante o semestre deixaram de existir e deram lugar a variados trabalhos e apresentações que juntamente com exame global final, representam a nova forma de avaliação. Tem sido esta a política adotada pela maior parte dos professores da minha licenciatura e da minha instituição”, frisou, assumindo que os alunos estão obrigados a um estudo mais autónomo de maior carga horária e menos eficaz.

Sobre  o ensino à distância versus ensino presencial, Duarte Moura revelou que o Governo tomo a decisão correta ao transferir para as instituições de ensinos o superior a decisão de retomar ou não as aulas presenciais.

“O ensino à distância parece-me, apesar de tudo, a solução mais viável.  Não diria que existiu distorção por parte do governo. Aliás, creio que o governo tomou uma boa posição ao deixar a cargo de cada instituição se retomaria ou não as aulas presenciais, dada a independência de cada uma e dado o caráter de cada curso, já que existem alguns mais teóricos e outros que são inevitavelmente mais práticos.

Sobre a suspensão do pagamento de propinas no ensino superior durante a crise da pandemia da Covid-19 com o objetivo de salvaguardar os estudantes e as famílias mais vulneráveis, Duarte Moura declarou não ser apologista da sua suspensão, antes da redução ao montante total desse pagamento.

“Sendo o setor económico aquele que talvez sofrerá maiores repercussões desta pandemia, não defendo a suspensão do pagamento de propinas no ensino superior. Defendo sim uma redução ao montante total desse pagamento, já que os estudantes viram-se obrigados a substituir alguns recursos da instituição, nomeadamente ao nível da eletricidade, água, refeições ,entre outros, pelos de casa”, expressou.

Questionado  sobre outros problemas a Covid-19 veio trazer, o aluno recordou que a nova realidade acarretou, também, problemas ao nível do isolamento do social.

“Este confinamento que foi imposto foi algo a que não estávamos acostumados, elevando os nossos níveis de stress e ansiedade”, acrescentou.

“A crise sanitária provocou nos estudantes um grande sentimento de incerteza, o que levou a um “relaxar” em questão dos estudos”

Mónica Rocha, estudante de Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) assumiu que a crise sanitária provocou nos estudantes um sentimento de incerteza.

“A crise sanitária provocou nos estudantes um grande sentimento de incerteza, o que levou a um “relaxar” em questão dos estudos. Passamos a ter um sentimento de que estávamos de férias, o qual era uma falsidade. Não posso afirmar que esta sensação durou muito tempo, porque a minha faculdade estava constantemente a atualizar-nos e cedo soubemos que teríamos que fazer os nossos exames em regime presencial”, disse, reconhecendo que a crise sanitária acabou por afetar a aprendizagem dos conhecimentos que passou a ser feita de uma forma mais individual e superficial.

“Se esta situação do covid-19 afetou o nosso desempenho académico, ainda não posso dar uma resposta certa, visto que pouco ou nada fizemos nesse sentido. Posso, sim afirmar que a aprendizagem dos conhecimentos foi feita de uma forma mais individual e superficial. Os professores mostraram-se sempre disponíveis para ajudar e não posso negar que eles foram uma parte fundamental no nosso estudo, mas o ensino à distância é diferente do presencial. No meu ponto de vista, o facto de algumas faculdades terem retomado a sua quase normalidade e outras não tem a ver com a necessidade que existe de que o ensino seja presencial. Quero com isto dizer, por exemplo, que faculdades que tenham o ensino mais prático têm uma maior necessidade de voltar à sua normalidade do que as faculdades que têm um ensino teórico. Não considero uma indefinição total do governo no que toca às universidades, pois estas têm métodos diferentes de atuar, consoante o que lecionam. Considero que tenha sido por isso que o governo deixou ao cargo de cada faculdade a decisão de retomar a atividade presencial”, confirmou.

Quanto à suspensão das propinas, a aluna defendeu que a melhor opção passa pela redução do seu valor.

“Não defendo a isenção do pagamento de propinas, apesar de estarmos nesta situação de pandemia mundial. No máximo, concordo com uma descida do seu valor apenas e só por não estarmos a usufruir das instalações. As universidade não pararam a sua atividade, continuaram constantemente a fornecer-nos recursos e devem ser pagas por isso. Aliás, apesar de nos querermos proteger de uma crise sanitária, também temos que nos proteger de uma crise económica e se o dinheiro parar de circular, estamos a encaminharmo-nos para esta última”, assegurou, sustentando que muitos alunos estão também confrontados com outro problema, a questão do isolamento.

“Outro problema que o covid-19 possa trazer aos estudantes é a ansiedade. Com o isolamento deixamos de poder sair com os nossos amigos, de nos abstrairmos dos estudos, o que pode levar a um aumento do stresse em relação às avaliações. Estamos confinados, sem muito para fazer e por consequência temos tendência a estudar mais o que nos leva a ficar mais ansiosos, o que, de certeza, irá ter implicações nas avaliações”, afiançou.

André Correia, estudante de Economia na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho (EEG-U.Minho), admitiu que a pandemia teve um impacto em toda a atividade humana e o ensino não foi exceção.       

“No entanto, acredito que a maioria dos alunos conseguiu adaptar-se à nova forma como o ensino se processa através dos meios digitais, apesar deste tipo de comunicação conter algumas barreiras, tais como a dificuldade de muitos, no acesso a meios tecnológicos (computadores, tablets…) e no acesso à internet. Não podemos esquecer também o impacto psicológico que este tipo de ensino nos provocou. Ansiedade e stress foram algumas das consequências e muito por culpa da incógnita na existência de aulas presenciais e de que modo iríamos ser avaliados”, confessou.

André Correia declarou, também, que a Covid-19 veio, de alguma forma, afetar consideravelmente a prestação dos alunos e a avaliação dos mesmos.

“De certo modo, a Covid-19 afetou a prestação dos alunos, talvez mais pela forma de ensino a que se teve de recorrer, sendo esta uma novidade para todos nós, mas também pelo o tipo de ambiente que se viveu nesta altura. O não poder sair de casa, não estar com os nossos colegas e família, acabou por causar um estado de “depressão” nos alunos que interfere na nossa motivação, no modo geral e em particular na nossa motivação académica”, asseverou, assumindo que o ensino à distância acabou por não ser tão complexo como alguns alunos apontaram.

“Na minha opinião, não é assim tão complexo como muitos referem. No meu caso, foi fácil a adaptação a este método, em concreto às aulas e ao modo como eram lecionadas. O horário era o mesmo, os professores interagiam connosco da mesma forma que nas aulas presenciais e nós acabamos por ter a vantagem de alguns professores facilitarem-nos apontamentos e gravações de aulas caso não pudéssemos estar presentes, o que é um ponto a favor das aulas à distância. As desvantagens do ensino à distância, a meu ver, são relativas ao ambiente externo de aulas e avaliações: o sedentarismo e a falta de envolvência na vida académica. Portanto, o ensino à distância, de modo geral, parece-me uma solução acertada. Em relação às universidades que optaram pelo ensino presencial, acredito que tenham por base nessa decisão motivações fortes como por exemplo nas universidades onde os cursos são mais práticos, nos quais o ensino à distância parece-me o menos adequado, neste momento”, atalhou.  

“Alunos estão confrontados com outros problemas como o burnout, stress, depressão, sedentarismo e a desmotivação”

Na questão das propinas, o aluno revelou ser a favor da sua redução.

“Defendo uma redução de propinas e não a sua suspensão, porque nós alunos acabamos por continuar a ter aulas e a sermos avaliados. De certa forma, parece-me injusto uma hipotética suspensão de pagamento de propinas, visto que acabaríamos por ter casos de alunos que recebiam a bolsa de estudante e não pagavam propinas, retirando rendimentos extra à custa do ensino. No entanto, as universidades acabam por reduzir os seus gastos e nós acabamos por não usufruir de todos os nossos direitos a que sempre tivemos acesso, logo parece-me injusto também um pagamento total de propinas durante esta crise”, adiantou, declarando que os alunos estão, também, confrontados com outros problemas como o burnout, stress, depressão, sedentarismo e a desmotivação.

“Foram muitos os problemas apontados, no entanto não foram só os estudantes a ter este tipo de problemas durante esta crise. Uns de melhor forma que outros porque nem todos somos iguais e nem todos temos a mesma capacidade de adaptação, mas todos passamos pela mesma situação”, afirmou.

“Existem pessoas que precisam de cuidados mais específicos que os pais, muitas das vezes, não conseguem dar em casa”

Já  David Leitão, estudante de Engenharia Eletrotécnica no Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), assumiu que com a crise sanitária, os alunos passaram a ter uma sobrecarga horária devido ao estudo autónomo.

O aluno concordou que a Covid-19 veio afetar consideravelmente a prestação dos alunos e a avaliação dos mesmos.

“Sim, uma vez que os alunos tiveram de fazer um estudo mais autónomo que resulta numa aprendizagem mais demorada e menos específica que a dado na sala de aula e que depois se irá notar consideravelmente nas avaliações”, garantiu.

Sobre o ensino à distância, David Letão lembrou que o estudo à distância aumenta o nível de preguiça/moléstia de estudar e de estar concentrado, o mesmo não se verificando no ensino presencial.

O aluno admitiu que a existência de dois tipos de ensino, um presencial e outro à distância veio colocar a nu alguma indefinição por parte do governo.

“Existem pessoas que precisam de cuidados mais específicos que os pais, muitas das vezes, não conseguem dar em casa. Um exemplo de escolas que deveriam permanecer abertas são as que acolhem meninos de ensino especial, uma vez que, necessitam destes cuidados e de ter um ensino mais específico”, referiu, defendendo ser apologista de que devem ser encontradas alternativas como a redução das propinas ou o pagamento de uma taxa da conta da Internet/luz para que sejam criadas condições aos alunos de dispor de um melhor estudo à distância e aos pais um suporte/apoio económico.

David Leitão apontou, também, a carga horária excessiva e o isolamento social, as doenças psicológicas provocadas pelo fase de confinamento a que os alunos estiveram  sujeitos como problemas que urgem minimizar.

Refira-se que esta quinta-feira, alunos ligados à Plataforma Quarentena Académica estiveram presentes em frente à reitoria da Universidade do Porto – contra o que consideram ser a “inação” do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior no combate à crise social e económica que a comunidade estudantil atravessa devido à pandemia da Covid-19.

Também, esta quinta-feira, uma  comitiva da Quarentena Académica entregou ao Conselho de Ministros todas as queixas remetidas à plataforma até à data, exigindo respostas concretas, para assuntos como: propinas, taxas e emolumentos, alojamento estudantil, regras claras para aulas à distância e avaliações, combate ao excesso de trabalho e burnout, ação social direta e mais apoio psicológico.