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Luís Filipe Menezes defende que PSD deveria apresentar projeto para definir onde vão ser gastos milhões que vêm para Portugal

Luís Filipe Menezes, comentador do Novum Canal, defendeu no seu espaço quinzenal, que o PSD deveria estar já a trabalhar num projeto que permita definir onde vão ser investidos os cerca de 15 mil milhões de euros a fundo perdido que se perspetiva venham a ser atribuídos, segundo a proposta da Comissão Europeia, a Portugal e outros países europeus, no âmbito do fundo para ajudar esses mesmos países a recuperarem da crise sanitária.

“É possível ter sentido de Estado, ser solidário numa questão tão grave como a epidemia que estamos a enfrentar, ter sentido de responsabilidade para aprovar instrumentos de política económica e social, para resolver os problemas dos portugueses, muitos estão numa situação dramática, empresas, trabalhadores, desempregados, cidadãos que estão em lay-off, mas depois é preciso começar a apontar um caminho e até esta oportunidade, o tal pacote financeiro que poderá vir aí. É um pacote perigoso porque o país poderá ter à sua disposição cerca de metade dos fundos europeus que teve em 37 anos.  Ou seja, ter em sete anos 50% de tudo o que teve em 37 anos. Uma coisa que se fala de 19 a 23 milhões de euros por dia até 2027. Ora, para isto é preciso não se perder esta oportunidade e para não se perder esta oportunidade é preciso alguém que aponte um caminho de reformas institucionais do Estado. A democracia também tem de ser valorizada, voltarmos a falar dos círculos uninominais, diminuição do número de deputados, do aumento de poder das cidades com uma maior e mais rápida descentralização. É preciso falar da forma, do projeto em que estes fundos vão ser aplicados e esse projeto deve apontar objetivos numa perspetiva de uma década. Temos que reindustrializar o país, temos de ser menos independentes do país, não passarmos por esta vergonha que passemos  na pandemia, de termos de importar necessidades elementares da China. Temos que aproveitar a oportunidade para apostar numa nova política de ambiente, uma nova política energética. As cidades têm que dar passos no sentido de alterarem a filosofia de gestão e forma de vida. Do ponto de vista da organização do trabalho é preciso institucionalizar com leis o teletrabalho, apostar em novas tecnologias e democratizar o acesso à internet e ao Hi-Fi. Portanto, há um grande caminho a percorrer”, disse, salientando que o maior partido da oposição já devia estar de batuta na mão a pautar o caninho que se deve seguir.

“Estamos a falar de muito dinheiro e nós sabemos que quando há muito dinheiro em Portugal, há muitos problemas e ele é muito mal gasto”, frisou.  

Luís Filipe Menezes, no espaço quinzenal, que a Covid-19 veio acentuar  a crise política, a falta de debate e discussão, mesmo entre os principais partidos, passando a existir uma espécie de concentração do poder em micro diretórios políticos.

“A política e as lideranças mundiais estavam em crise e esta epidemia veio acentuar esta crise porque veio concentrar o poder em micro diretórios políticos, ou seja, os povos uniram-se, com mais ou menos entusiasmo, à volta dos seus lideres e os seus líderes passaram a ter um poder absoluto. Nas democracias, incluindo na nossa, o Dr. António Costa passou a reinar dentro do Partido Socialista. Nunca mais houve uma reunião partidária propriamente dita a sério. Daí o Dr. António Costa ter tido aquele à vontade de ter escolhido sozinho um candidato presencial. O presidente da República viu as suas quotas de popularidade aumentar, depois de uma fase inicial da epidemia em que esteve confinado, mas tem estado muito ativo, de estilo mais de rei do que Presidente da República e viu o seu poder, pelo menos, da palavra , junto do povo, aumentar”, expressou.

“As oposições à esquerda desapareçam”

O antigo líder do PSD conformou que este crise não está apenas adstrita aos partidos no poder, atingiu também as oposições.

“Da mesma forma que as oposições, vamos ser verdadeiros, desapareceram completamente. As oposições à esquerda desapareçam. Lá aparece de vez em quando o PCP a fazer uma exigência a fazer uma exigência, a pedir uma contrapartida, para dar um voto clemente para uma coisa importante para a Assembleia da República. Acho que o Bloco de Esquerda desapareceu completamente de cena e à direita, os três partidos mais pequenos, o CDS, o Chega e o Iniciativa Liberal têm feito o que podem. O Chega até penso que tem subido nas sondagens, mas não estamos a falar de partidos que tenham a presunção de em cinco, seis, sete ou oito anos chegar a partidos maioritários. Não vislumbro isso. O único partido que poderia ter essa pretensão era o PSD. O PSD tem optado por uma posição construtiva, uma opção de Estado. Acho muito bem a posição de Estado em relação às questões de saúde pública. Acho até bem a posição de Estado em relação à aprovação de orçamentos ratificativos. O país não pode viver sem orçamentos ratificativos. Já no passado, o PSD, ao contrário de outros partidos e do PS em particular, deu provas desse sentido de Estado. Lembro Marcelo Rebelo de Sousa aprovou três orçamentos de Estado para que Portugal pudesse entrar no euro. Ora, isso é uma coisa, outra coisa é deixar de existir como alternativa. O que é que hoje separa o PSD do PS do ponto de vista ideológico, programático, reformista?”, questionou, recordando que foi líder do PSD, é militante do PSD, e não encontra diferenças entre os dois maiores partidos portugueses.

“Com sinceridade não sei quais são as diferenças que a atual direção do PSD tem em relação ao Partido Socialista, mas sei as diferenças que tenho em relação ao Partido Socialista”, atalhou.

“Se os portugueses tomarem medidas para si próprios de autodisciplina penso que vamos chegar a Setembro/Outubro numa situação confortável”

Outro dos temas abordados por Luís Filipe Menezes foi a questão da pandemia e a gestão comunicacional da mesma pelo Governo.

“Estamos num lote de países que tomou no essencial medidas corretas e no “timing” correto.  As minhas críticas  foram sempre no sentido de que alguns responsáveis institucionais não foram fantásticos num aspeto muito importante neste tipo de crises que é a comunicação. Quando se passam sinais contraditórios, quando a senhora diretora-geral de saúde disse que a epidemia nunca sairia da China, nunca chegaria à Europa…mas no essencial, as opções foram corretas. Quando a Organização Mundial de Saúde em pouco menos de 24 horas disse duas coisas opostas em relação à evolução da pandemia. Houve uma diretora espanhola a dizer que a pandemia tinha ido embora e depois um diretor, no dia seguinte, a dizer que podemos ter uma vaga muito perigosa. É mentira que estejamos entre os melhores dos melhores, mas também estamos longe de estar entre os piores. Estamos numa saudável posição de meio da tabela de comportamento quer em relação ao número de casos, quer em relação ao número de óbitos”, avançou, assumindo que as mensagens contraditórias, conduziram a um certo aligeiramento.

“Estou convencido que aquilo que está a acontecer em larga medida na Grande Lisboa decorreu daquilo que foi um aligeiramento de comportamentos desde a manifestação escusada da Intersindical, até àquelas invasões prematuras das praias, até alguns descuidos em algumas concentrações de trabalho que mereciam um outro tipo de cuidados, mas vamos ser otimistas. Não tenho qualquer dúvida a contenção dos estragos já não está na mão dos políticos nem da Direção-Geral de Saúde, está na mão  dos portugueses. Se os portugueses tomarem medidas para si próprios de autodisciplina penso que vamos chegar a Setembro/Outubro numa situação confortável”, acrescentou.

“Temos de ser otimistas e acreditar que a pandemia se pode transformar numa endemia e ser uma situação de saúde pública gerível, que não vai afundar ainda mais a economia”

Ainda sobre a gestão da crise sanitária e o desconfinamento, Luís Filipe Menezes precisou que temos de ser otimistas e acreditar que a pandemia se pode transformar numa endemia e ser uma situação de saúde pública gerível, que não vai afundar ainda mais a economia.

“A questão da abertura à economia é uma aventura, ou seja, não sabemos como vai evoluir a epidemia. Há quem desvalorize muito esta epidemia, dizendo que é uma epidemia que só mata os velhos. Eu estou completamente em desacordo e mesmo que assim fosse, os mais velhos deveriam ser também protegidos como cidadãos de pleno direito. Contudo, a abertura da economia, uma vez contida exuberância da epidemia, era uma inevitabilidade. Não tenho muitas críticas a fazer. Haverá críticas pontuais, é um caminho realista, mas não deixa de ser uma aventura porque todas as contas que se fazem do ponto de vista económico e esta é uma semana importante, dadas as decisões anunciadas pela Comissão Europeia que vai propor ao Conselho Europeu um novo Plano Marshall para a Europa, mas neste momento não sabemos exatamente quais os efeitos de depressão da economia, daquilo que se passou nos últimos dois, três meses e do que está para vir”, concretizou.

“Quando se fala numa recessão de 7, 8%, alguns falam de 10, 12%, isto ainda é gerível. A tal recuperação que os especialistas apontam para ser uma recuperação muito mais rápida do que a que resultou da crise financeira de 2008, também é possível, mas é possível se não houver resiliência da epidemia. Se a epidemia voltar, todas estas contas saem forradas. Temos de ser otimistas e acreditar que a pandemia se pode transformar numa endemia e ser uma situação de saúde pública gerível, que não vai afundar ainda mais a economia e que aquilo que são os pacotes financeiros e as medidas pensadas para uma recuperação e aqui estou a falar do espaço europeu, embora a Europa não vai recuperar se não recuperar os Estados Unidos, a América Latina e os mercados do extremo oriente. Mas o pacote que está pensado para a Europa é um pacote muito ambicioso, mas todos nós estamos a jogar um bocadinho como se fosse no casino, um bocadinho no escuro porque não sabemos qual vai ser a dimensão da recessão por país e região do mundo e se a epidemia não nos irá obrigar, mais lá para frente, a recuar do ponto de vista da recuperação económica”, afiançou.