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“Vamos sair desta crise um bocadinho diferentes do que entramos”, José Manuel Fernandes, fundador do Observador

O diretor e fundador do Observador, projeto jornalístico online de maior expressão nacional, confirmou, esta quinta-feira, no programa Especial Informação, conduzido por Paulo Lopes, que “Vamos sair desta crise um pouco diferentes do que entramos”.

José Manuel Fernandes, ex-diretor do Público, com uma vasta experiência na área da comunicação, aludia assim à transformação que os media, em especial a imprensa escrita e a televisão, conheceram nestes últimos anos e que a crise sanitária contribuir para acelerar, com vários órgãos de comunicação e utilizadores a optaram pelo digital.  

“Na utilização  das tecnologias demos um salto de dez anos em dez semanas  Pessoas que nunca tinham olhado a sério para os computadores e que os computadores  são capazes de fazer passaram a utilizar certas ferramentas que o digital permite fazer, nomeadamente, reuniões, dar aulas, para comunicar, entre outras. Afinal de contas viram que tem um conjunto de outras utilidades muitos diversas. Passaram a olhar para computador e para o telemóvel de uma maneira mais próxima e isso acho que é bom porque as pessoas ganharam uma maior literacia relativamente ao digital”, disse.

Do ponto de vista da forma como a informação, de como esta está a chegar às pessoas, José Manuel Fernandes assumiu, também, que os media tiveram, por via desta situação, que se adaptar a uma nova realidade que ganhou novos contornos na sequência da Covid-19.

“Diria que é uma tendência incontornável. A transferência da procura de informação dos meios tradicionais para os meios digitais começou há 20 anos, talvez um bocadinho antes com a internet e tem vindo a acelerar-se cada vez mais  Já vimos acabar alguns jornais em papel, há alguns que nunca acabarão. Outros acabaram mesmo com os títulos, outros conseguiram reinventar-se apenas no digital. Nas rádios o processo de transição será mais lento, mas nas televisões estamos a ver uma transformação muito rápida à nossa frente  Hoje em dia o consumidor é muito mais ativo, escolhe o que quer, pica aqui, pica acolá, isso começou com a imprensa escrita, mas verifica-se na televisão. As pessoas seguem cada vez menos o menu que lhe é dado pelas televisões  generalistas e fazem o seu próprio menu diário, sobretudo as pessoas mais novas. Não é igual em todos os escalões etários. As pessoas escolhem e são mais exigentes. Há uma transformação e este processo acelerou esta transformação porque muita gente encontrou no digital satisfação para necessidades que nem sabia que podiam satisfazer. Vamos sair desta crise um bocadinho diferentes do que entramos”, avançou.

Falando da criação do Observador Primium, uma assinatura criada pelo jornal online que permite ao leitor ter acesso privilegiado e ilimitado a todos os conteúdos primium, assim como artigos exclusivos, especiais, artigos de opinião, José Manuel Fernandes esclareceu que apesar da assinatura paga, o Observador registou um crescimento significativo nos últimos dois meses  e que os leitores entendem o valor da informação, sobretudo, numa altura destas.

“Estávamos a fazer um esforço numa altura de maiores dificuldades porque ao mesmo tempo que isto sucedia, a publicidade seguiu o mesmo caminho que a economia, só que numa proporção maior. Fomos vítimas da racionalidade dos anunciantes e precisávamos de compensar isso de alguma forma”, atalhou.

José Manuel Fernandes recordou que no dia 25 de março, o Observador enviou uma carta ao Governo e ao Presidente da República alertando para a situação de dificuldade que se estava a passar nos órgãos de comunicação social.

“O que fosse feito deveria obedecer a alguns princípios e ter algumas preocupações com os postos de trabalho. Estávamos numa altura em que era preciso que os órgãos de informação estivessem na sua máxima força. Não estávamos a pedir ajuda para layoffs, estávamos a pedir ajuda para poder continuar a trabalhar, que não introduzissem distorções no mercado, não fossem ajudas para corrigir situações que viessem do passado. Propusemos mecanismos de empréstimos garantidos que sugerimos que fossem indexados ao número de trabalhadores e que facilitassem a vida aos anunciantes. Não foi por esse caminho que o Governo entendeu ir, foi por um caminho diferente e na altura em que tomamos conhecimento disso alertamos que isso tinha vários problemas e manifestamo-nos junto do Governo, dizendo que o caminho escolhido introduzia várias distorções”, confirmou, sublinhando que esta não era esta a solução inicial que o Governo tinha desenhado.

“Ao princípio havia uma fórmula  de cálculo diferente daquela que acabou por ser a fórmula final. Aguardamos que houvesse alguma correção das medidas. Havia algumas coisas que nos pareciam mal orientadas, que não iam na orientação correta. Considerar apenas um investimento publicitário do segundo trimestre não tinha em consideração o que tinha acontecido às empresas de 2019 para 2020. E tinha havido empresas com dinâmicas muito diferentes, que estavam a crescer, que tinham estado a investir e que iam ser penalizadas e havia empresas que tinham estado a desinvestir e que iam ser beneficiadas”, referiu, acrescentando um outro fator que acabou por distorcer a lógica estabelecida inicialmente.

“O mecanismo escolhido da compra de publicidade pode parecer que não é um subsídio e manifestámos nessa carta inicial que éramos contra qualquer tipo de subsídio, mas acaba por ser parecido com um subsídio. A compra de publicidade pelo Estado não corresponde a um subsídio à comunicação social, corresponde à compra de um serviço, mas quando estou a comprar publicidade, estou a comprar publicidade dirigida a determinados públicos. Não compro a publicidade igual nos órgãos de informação todos. A partir do momento em que esse tipo de compra passa a ser, digamos, politicamente dividida de acordo com o critério de decreto de lei, a compra continua a ser um serviço, só que a distribuição desse serviço já é feita não de acordo com os critérios de mercado, mas sim critérios políticos”, acrescentou.