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Covid-19 deixa grupos e bandas de música sem darem concertos e a reinventarem-se

São inúmeras as bandas e grupos musicais da região do Tâmega e Sousa e do Douro que estão a sentir sérias dificuldades, na sequência da crise sanitária provocada pelo Covid-19.

Impossibilitadas de darem concertos e sem receitas, muitas viram-se obrigadas a reinventarem-se recorrendo às redes sociais numa tentativa de se manterem vivas e em contacto com o seu público e os seus fãs.

A recente decisão do Governo e das autoridades  de saúde, de proibir a realização de espetáculos até 30 de Setembro, com a exceção dos concertos que tiverem lugar marcado, veio ainda agravar mais este cenário.

O Novum Canal ouviu duas bandas da região, com registos musicais diversos, que nos deixaram o seu testemunho sobre esta fase mais complexa que está a atingir o setor e que perspetivas têm para o futuro.

Tiago Mota, dos Blueberries for Chemical, uma conhecida banda de Penafiel,  assumiu que a situação é difícil, levou  alteração do cronograma de trabalho e impossibilitou o lançamento de um Ep.

“Julgo que posso falar de forma generalizada, e acho que todas as bandas estão a passar pelo mesmo, o covid-19 veio  interromper em muito o nosso trabalho. No nosso caso mais concreto a divulgação e promoção do nosso Ep de estreia-Surfing on Earthquakes! Infelizmente  tivemos que cancelar…estávamos a trabalhar na divulgação do Ep, sendo que tivemos que cancelar concertos importantes para nós em três grandes cidades e grandes spots, Aveiro, Lisboa e Braga”, disse.

Questionado sobre os impactos económico-financeiros desta crise sanitária no meio musical. Tiago Mota realçou que no caso dos Blueberries for Chemical, as consequências não são tanto ao nível financeiro., mas sim pelo facto de não terem conseguido lançar o Ep.

“Como somos uma banda ainda a tentar emergir neste meio financeiramente não fomos muito afetados pois não é a musica que nos paga as contas mas sim atrasou todo um processo que quiça poderia ser a nossa rampa de lançamento”, expressou, reconhecendo que as redes sociais e a utilização das plataformas foi um meio que muitos grupos e bandas usarem para manterem a relação com os fãs.  

“Não fizemos concerto em direto, mas tentamos partilhar o nosso trabalho  que esta disponível nas em varias  plataformas digitais tal como spotify , deezer…etc assim como vídeos que temos no youtube. Apenas para dizer que estávamos vivos e bem de saúde”, expressou, reconhecendo que a opção do  Governo de proibir festivais de música até 30 de Setembro, não sendo benéfica para o setor, acabou por se justificar, tendo em conta e evolução epidemiológica da doença e a necessidade de salvaguardar as pessoas.

“Temos que ter em consideração que é o melhor por todos nós. Acho apenas que o Governos deveria estar também atento a este setor e ajudar de alguma forma”, avançou, reconhecendo que poderiam  existir outras opções a ter em conta, nomeadamente permitir que o setor reabrisse mais cedo à semelhança do que está a suceder com outros setores de atividade, mas a emergência nacional e estado de calamidade acabaram por ditar este desfecho.

“Sabemos que este vírus o covid-19 é altamente contagiante se nos pedem distanciamento temos que o respeitar para evitar a propagação do mesmo. Todos sabemos que os festivais e concertos em espaços fechados levam muita gente e por norma todos muitos próximos, temos que ser realistas e por mais que seja difícil de aceitar tem mesmo que ser assim”, confirmou.

“Acredito que nesta fase será mais fácil para as bandas mais pequenas superarem e manterem pois já estão habituadas”

Questionado sobre  se depois deste interregno forçado as bandas e grupos da região vão conseguir voltar ao mercado, Tiago Mota admitiu que esta não é uma resposta fácil de dar.

“O caminho tende a ser difícil, já sem o covid-19 não é fácil pagar as contas com a musica! Mas há que haver confiança e espero muito honestamente que todo fiquem bem. Tal como as empresas muitas vão superar, muitas vão fechar. Mas acredito que nesta fase será mais fácil para as bandas mais pequenas superarem e manterem pois já estão habituadas. Já as grandes banda e para quem faz e sobrevive essencialmente da musica espera-os um futuro muito incerto”, constatou, defendendo a criação de apoios e incentivos para o setor.

Os  B.F.C são constituídos por quatro amigos que se juntaram pelo gosto que tem pela música e pela química que existe entre si.

“Os B.F.C  são sinónimo  de humildade e determinação, pois temos consciência do grau de dificuldade que é o mundo da musica e vingar na mesma mas sem nunca baixar os braços mas pelo contrário trabalhar muito e com empenho para alcançar os nossos  sonhos”, avançou, sustentando que o público-alvo dos Blueberries for Chemical são pessoas que gostam de rock \alternativo

“Contudo e pelas sondagens nas plataformas digitais percebemos que a faixa etária esta entre os 20-40 anos”, adiantou, confessando que a banda estava a trabalhar num LP, quando iniciou esta crise sanitária.

“Se este covid-19 não nos colocasse um intervalo à força, sim , a ideia seria  trabalhar num Lp , não estamos parados e aproveitamos esta pausa para preparar novas musicas , mas a divulgação e promoção do Ep-Surfing On Earthquakes  se tudo correr bem irá voltar à estrada , é um Ep muito bom para ficar apenas na estante tem que ser levado aos palcos”, rematou.

“Surto está a afetar a cultura em geral e a paralisia trará efeitos nefastos para a já frágil situação financeira  da nossa cena “alternativa”

Nuno Sousa, dos MUAY, alinhou pela mesmo diapasão quanto aos efeitos e impactos do Covid-19 no setor musical.

“Acredito que esteja a ter as mesmas repercussões que no resto do País: salas vazias e zero espetáculos – paralisia total”, frisou, confessando que o grupo teve que cancelar concertos, festivais e showcases.

“O nosso último concerto foi no dia 7 de Março, Ponte de Lima. Foi, aliás, o último fim de semana “normal”. Tivemos de cancelar concertos, festivais e showcases”, acrescentou, reconhecendo que para já é difícil contabilizar os impactos económico-financeiros desta crise.

“É difícil de contabilizar. No entanto, se pensarmos apenas nos Festivais de Música, podemos considerar uns largos milhões de euros. É um surto que está a afetar a cultura em geral e a paralisia trará efeitos nefastos para a já frágil situação financeira  da nossa cena “alternativa”. Não poder sair da sala de ensaios e tocar, é mais do que um prejuízo, é uma privação da partilha”, declarou.

Sobre a opção seguida por  muitos grupos e bandas de usarem as redes sociais como forma de interagirem com o seu público, Nuno Sousa esclareceu que esta não foi uma opção para os Muay.

“No nosso caso não foi opção. Não nos foi possível reunir as condições necessárias para partilhá-lo em streaming ou em direto numa rede social”, atalhou, concordando com a opção do  Governo de proibir festivais de música até 30 de Setembro.

“Acredito que seja o caminho e que são as medidas necessárias para que tudo possa voltar ao normal. Não acredito que haja confiança no público para se dirigirem com tranquilidade a um recinto com 50.000 pessoas. Estivemos confinados durante quase dois meses. Tivemos receio ao ir ao supermercado, à bomba de gasolina, a conversar com o vizinho da frente ou a ir buscar pão à padaria. Não creio que num mês, o chip mude e que os Festivais – ou qualquer outra grande aglomeração de pessoas – sejam uma opção que se tome de ânimo leve (por muita vontade que todos tenhamos de ir a concertos e festivais!)”, asseverou.

Sobre esta questão, Nuno Sousa não tem dúvidas que o setor musical é claramente um setor de risco, de contacto e de interação social.

“É impossível manter uma distância num recinto ao ar livre. Consigo imaginar mil razões para acreditar que ainda não seja o momento dessa retoma e reabertura. Do mesmo modo que o Futebol com público é uma miragem. por agora. Mesmo os espaços com lugar marcado apresentam problemas do ponto de vista da circulação que são difíceis de controlar. E o facto da lotação ter de ser reduzida a metade ou a um terço, pode inviabilizar a operação do ponto de vista financeiro. O céu está muito negro lá fora”, anuiu.

Já sobre se as bandas e grupos da região vão conseguir voltar ao mercado, Nuno Sousa revelou que o mercado da região é o mesmo “mercado” dos bares e dos pubs.

“Nunca foi famoso em remunerações e praticamente vivemos na cadeia alimentar por de baixo do djset ou do disco tocado sem set: vamos continuar mal e pior que isso, sem sítio nem lugar para tocar ao vivo. Os últimos anos de retoma da economia viram a “noite” a florescer. Apareceram festivais mil, concertos em toda a parte e imensa promoção à produção musical nacional. No entanto, os cachets continuam no registo de um valor de porta ou de valores que cobrem quase que as despesas de deslocação. Parece-me complicado tirar ainda mais a esta “micro cena”. A cerveja custa 2.5€ e o bilhete 5€ com oferta de uma cerveja. Não era preciso o Covid para compreender que algo está errado. As bandas vão voltar ao “mercado”: carregar a carrinha, fazer sound-check, conviver ao jantar, abrir ou ver a banda de abertura e tocar. Vão voltar a carregar a carrinha e regressar à sala de ensaio com pouco mais de dez euros para a “carteira da banda”, recordou.

Quanto à criação de apoios e incentivos para o setor, Nuno Sousa foi taxativo: “Se for como TV FEST é melhor não. Se for com critério e com a intenção de ajudar, sim”, acrescentou, defendendo que mais dinamização cultural poderia ser uma alavanca para os artistas da região, assim como mais locais para tocar ou expor.

Os MUAY são um duo que mistura um sintetizador com várias guitarras e uma bateria manca. Uma mescla rubro-negra post-something, de inspiração asiática e cadência meditante com fragância de bálsamo de tigre.

À pergunta quem é o público-alvo dos Muay, Nuno Sousa  revelou: “Não sabemos! Podem seguir-nos em muayband.bandcamp.com ou no instagram e perceberem se são o nosso público-alvo…”.

O grupo está a preparar uma nova edição, com novas canções.

“Para já, é um conjunto de sons que um dia pode vir a ser mais qualquer coisa”, confessou.

“As salas fecharam, as equipes técnicas vivem com enormes dificuldades assim como os músicos”

Rui Pintado, do  projeto musical eletrónico Desligado, tal como os demais, revelou que todos os concertos que tinha agendado foram cancelados, revelando ser difícil, nesta fase da crise sanitária fazer uma avaliação dos impactos económico-financeiros que o surto musical  está a provocar no meio musical.

“Acho difícil poder ser feita uma avaliação precisa do impacto da situação atual no meio musical. É uma atividade que em geral tem uma postura informal, em que as pessoas normalmente têm outra atividade profissional e portanto, será difícil perceber. Acredito é que após esta crise sanitária, a situação geral vai tender ainda mais para a informalidade pois se as coisas eram difíceis até aqui, esta impossibilidade sem fim à vista de reunir pessoas quer em ensaio, palco ou no público, tornará ainda mais difícil esta atividade”, atalhou.

Interrogado sobre o uso das redes sociais como forma de interagir com o seu público, opção que tem sido usada por alguns grupos musicais, Rui Pintado assegurou que esse não foi o seu caso que aproveitou, esta fase, para reorganizar o material que tinha.

“No meu caso específico, não recorri  a essa ferramenta. Sobretudo porque aproveitei para fazer algum trabalho estrutural e portanto não trabalhei no sentido de fazer apresentações mas sim no sentido de reestruturar e reorganizar o material que tinha. No entanto, penso que apesar das vantagens de usar esse tipo de ferramenta para ir divulgando o trabalho e manter o contacto com o público, acho que a utilização dessas soluções tem que ser bem ponderada pois de certa forma, esse recurso, participa da ideia de que o acesso ao produto cultural é gratuito. Isso sempre criou vários problemas aos músicos e essa ferramenta basicamente reforça essa atitude de que é grátis aceder à produção cultural. Uma ideia que todos entendem como errada em todas ou praticamente todas as atividades profissionais, mas, que no acesso à música, as pessoas vão continuando a procurar aceder de forma grátis pondo em causa a sobrevivência de quem se dedica a essa atividade”, revelou, considerando que a opção do  Governo de proibir festivais de música até 30 de Setembro, não sendo benéfica para os grupos musicais,  revelou-se acertada.

“Sim, lesa o setor, mas a verdade é que ao momento sabemos que este, como qualquer outro vírus se propaga pelo contacto. Sendo os festivais por definição um grande aglomerado de pessoas, penso que seria pior para o setor que esses espaços de lazer se tornassem em enormes focos de transmissão da doença. Seria pior para o setor e para o país”, precisou, admitindo que é importante ir avançando sempre com passos seguros e dentro do que são as recomendações das pessoas que de facto estão a estudar o vírus.

“Eu não sou especialista em pandemias, não sei que hipóteses há de evitar o contacto e ao mesmo tempo autorizar a reunião de um grande número de pessoas. Acho que as medidas tomadas podem sempre ser postas em causa na medida que toda esta realidade é nova para todos. Penso que é importante ir avançando sempre com passos seguros e dentro do que são as recomendações das pessoas que de facto estão a estudar o vírus, os cientistas. Desta maneira, não consigo adiantar ou sugerir outras formas de ação porque na essência o que necessitamos todos é de controlar avançar do vírus o mais rápido possível para c isso recuperarmos as nossas atividades”, atalhou.

Interrogado sobre se os grupos da região vão conseguir voltar ao mercado, Rui Pintado assumiu que o mais importante é pensar que mercado vai existir.

“As salas fecharam, as equipes técnicas vivem com enormes dificuldades assim como os músicos. Esta indústria em Portugal sempre precisou que da parte das pessoas e das entidades competentes houvesse uma clarificação do que se pretende para o setor. Facilmente se percebe que por exemplo se a seleção nacional fosse amadora ou semi-profissional com toda a certeza não seríamos campeões da Europa. O que é preciso perceber é se entendemos o setor como uma possível fonte de riqueza ou só uma área anti-stress para profissionais de outros ramos. Os músicos da região estão obviamente obrigados a este paradigma, ou vale a pena um trabalho focado, exigente e profissional ou se por outro lado as coisas são para ir fazendo relaxadamente”, aludiu.

Quanto à criação de apoios e incentivos para o setor, Rui Pintado declarou que nos países europeus participam financeiramente no esforço dos seus artistas e fazem-no com o objetivo de criar riqueza e contribuir para a economia nacional.

“Mais uma vez, é preciso definir onde se quer chegar com a indústria de criação musical em Portugal. Outros países europeus participam financeiramente no esforço dos seus artistas e fazem-no com o objetivo de criar riqueza e contribuir para a economia nacional. Isto em Portugal parece uma ideia louca mas países como a Suécia ou França que subsidiam diretamente os seus músicos têm na indústria cultural/musical um dos principais contributos para a sua economia nacional. Se tal como no futebol ou no turismo se apostou e agora se tem colhido os frutos dessa aposta, a nível da criação musical isso também pode acontecer, mas isso não será realidade no contexto em que sempre se enquadrou este tipo de atividade. A verdade é que bancos, companhias de aviação e tantos outros têm tido um apoio do Estado regular, provavelmente a ideia é criar riqueza, se a mesma atitude se aplicar à criação musical, e se forem dados os passos certos no tempo certo, tal como noutros países, a indústria musical vai criar riqueza”, declarou.

Falando das dificuldades que enfrentam os grupos e bandas musicais da região,  Rui Pintado, do projeto musical eletrónico Desligado, reconheceu que a região vai tendo modos diferentes de lidar com a criação e a atividade artística.

“Todos os concelhos (região do vale do Sousa e Tâmega) têm por exemplo ensino integrado na área da música e da dança, em Penafiel não há essa opção. O que se traduz por exemplo e concretamente que uma criança que queira ter ensino de música altamente competente e qualificado em toda região, os pais têm uma prestação extra de 5 ou 6€ por mês, para uma criança de Penafiel ter o mesmo nível de ensino artístico os pais terão que pagar uma mensalidade pelo menos 10 vezes superior. E, sem a hipótese de incluir esse processo de aquisição de conhecimentos no currículo escolar. Claro que isto a médio prazo se traduz em uma enorme variedade de profissionais qualificados nas atividades artísticas noutros concelhos que não em Penafiel. Isto traduz-se na facilidade em encher salas de espetáculos, ou na não existência de salas de espetáculos em Penafiel. Isto traduz-se efetivamente na capacidade de concentração, raciocínio, coordenação motora, melhores resultados escolares noutros concelhos e não em Penafiel. Isto traduz-se num aumento da capacidade crítica e criativa em todas as atividades maior noutros concelhos e não em Penafiel. Mais uma vez, teremos que perceber quais os ganhos e os custos de atendermos às necessidades fundamentais da atividade artística ou não. Teremos que perceber onde queremos que a nossa comunidade chegue ou não. É fácil dizer que 100€ para pagar um músico é um enorme esforço para uma autarquia. No entanto, facilmente percebemos que ninguém pode estar 8 horas por dia a desenvolver capacidades, investir vários milhares de euros em equipamento e formação para esporadicamente receber 100€ dos quais paga impostos e muitas vezes tem que pagar as refeições do dia. Não é viável. Se estamos bem com isso, não vale a pena mudar nada, se olhamos para os concelhos vizinhos e gostamos dos resultados que têm a todos os níveis beneficiando de uma atividade artística local saudável e em desenvolvimento então é preciso perceber como os casos de sucesso chegaram aos resultados que também pretendemos. Ou não”, concretizou.

Desligado é um projeto a solo de Rui Pintado. É um projeto de música instrumental que vai convidando a olhar para dentro e a viajar.

“Procuro criar paisagens sonoras que convidam a ver de preferência de olhos fechados”, avançou, admitindo que o seu público-alvo são todos os que gostem de música e de se entregar à descoberta.

“Mais que público alvo, acho que é mais uma questão de momento certo, é uma sonoridade em geral tranquila e que requer alguma atenção, daí que, o momento certo é a chave”, lembrou, afirmando que está a preparar gravação do material que me tem acompanhado nos concertos que tenho vindo a fazer.

“Aproveitando este momento atual de recolhimento, e como tenho a sorte de me ser possível trabalhar, tenho estado a preparar a gravação do material que me tem acompanhado nos concertos que tenho vindo a fazer. Talvez este ano possa ainda apresentar o fruto deste trabalho”, declarou.